...Foste tu, moinho de vento, testemunha de tanto amor... tanto tempo desejadas e finalmente vividas...

 
 
 
Como gostaria de ser poeta, saber jogar com as palavras
 
Faria um poema, mas não seria dedicado a ti meu moinho,
 
Colocaria cada palavra no seu lugar, cada qual no sitio certo,
 
E dedicaria àquela que comigo fez de ti o nosso ninho.
 
 
 
Já não tens velas para rodar, já não fazes mais pão,
 
Estás imóvel no alto dessa serra, testemunha do passado,
 
Quem poderá saber o que já viste, o que tiveste dentro de ti,
 
Quantos te visitaram, quantos viveram no teu interior,
 
Que segredos guardam as tuas paredes grossas de pedra fria.
 
 
 
Mas, não falas, não podes desvendar para ninguém,
 
Talvez tua sina não seja triste e por isso não sentes dor,
 
Guardas para ti, entre as tuas pedras velhinhas,
 
A recordação dos nossos momentos de amor.
 
 
 
O Vento entrava nas tuas janelas e a lua espreitando lá fora,
 
Foram nossos companheiros fiéis de todos os momentos,
 
Ele, soprando levemente nossos corpos nus, cansados,
 
Ela, com sua suave luz, iluminava o corpo de minha amada,
 
Aquele corpo querido, desejado, que foi meu, totalmente meu.
 
 
 
Momentos de felicidade vividos entre tuas paredes de pedra,
 
Instantes que ficarão para sempre retidos na memória,
 
Felicidade extrema, vivida intensa e apaixonadamente,
 
Por dois seres que se amam, se desejam e se tiveram.
 
 
 
Segundos, minutos, horas, dias vividos em comum,
 
Onde qualquer gesto, qualquer palavra foram verdade,
 
Aquela verdade que o amor encerra e em que tudo é belo,
 
Cada olhar trocado, cada tocar de mãos, cada carícia,
 
Um beijo, outro beijo, cada um mais prolongado.
 
 
 
Uma cama banhada pelo luar, dois corpos nela deitados,
 
Um cobertor no chão estendido, dois amantes se beijando,
 
Um jantar a dois, naquele lugar quase abandonado,
 
Um curto passeio nocturno, bem juntinhos, lado a lado.
 
 
 
Procurando por ela no escuro, qual menina brincando,
 
Fugindo, de brincadeira, como que me desafiando,
 
Sabendo que a loucura ia aos poucos aumentando,
 
Depois, corpos abraçados, o teu interior procurando,
 
Para, num segundo, sermos um só corpo, de novo se amando.
 
 
 
Foste tu, moinho de vento, testemunha de tanto amor,
 
Carinho, ternura, paixão, carícias tanto tempo contidas,
 
Tanto tempo desejadas e finalmente vividas,
 
Foi no teu seio, moinho de vento velhinho, cansado,
 
Que a ela me entreguei, amei e fui amado.
 
 
 
Se eu fosse poeta, saberia ter feito um poema,
 
Não fiz, pois poeta não sou, nunca tal serei,
 
Sou apenas eu, que nestas palavras colocadas à toa,
 
Quero dizer para ela, nesta minha maneira singela,
 
Que a quero, que a amo, que a desejo, como nunca antes dela,
 
Alguém, deste jeito, eu alguma vez amei.
 
 
  
Poema dedicado a Maria da Graça

 

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