Eu tenho um cansaço tão grande...
cansaço das pedras velhas do caminho,
que ralam e rolam pelas ribanceiras.
O cansaço das árvores majestosas
que recebem pedradas ou são cortadas
para alimentar a ganância do homem...

Sim, eu tenho um cansaço de poetisa velha
que nem sabe mais fazer rimas,
e que já escreveu por muitas eras!
O cansaço das heras
que sobem sem parar pelos muros das casas
e que sabe que não vai chegar a nenhum lugar.

Tenho o cansaço da desesperança dos românticos
o tremular de pernas dos velhos, com um corpo de adulto e alma de criança
o abrir de bocas de tédio.
O cansaço dos animais no campo num dia quente demais....
De tal forma que seria melhor nem ter nascido,
mas se não houve como renunciar
nascer pelo menos rico...

Porque conquistas e ideais também cansam por serem intermináveis!
Alimentam. Mas descrente que sou de outras vidas,
serão enterrados no túmulo comigo
como tudo que é grandioso e esquecido.
Tenho o cansaço dos sábios,
nessa luta inclemente e incessante em busca do desconhecido.

Como estou cansada, e de muita coisa...
Menos de Cecília, e de Drummond e de Pessoa!
Que dividem com todos nós o cansaço do mundo!
E sabem que o mundo é um poço sem fundo.
Sabem que quem diz que é otimista e feliz, mente...
Engana-se como uma semente que não germina.

Sei que essa é nossa sina,
que passamos uma resina no rosto como terebentina,
que dá brilho, e fingimos felicidade...
fingimos que não temos medo da morte.
E para compensar esse medo,
relegamos o amor a muitos casos amorosos,
achando que eles vão preencher o vazio que sentimos da Divindade em nós!

Estou, sim, cansada de tantos nós.
Meu cérebro está confuso, obtuso,
buscando o descanso
que não encontra nunca...
descanso de uma fuga do sistema?
de um fugir de si mesmo?
Ou uma chave de Ouro para esse poema?

Clique aqui para download da Midi: " Ponta de areia"  (Milton Nascimento/Fernando Brant)

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