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Um
dia,apareceu
sobre o muro
de divisória
da vivenda ao
lado,um gato
esquálido,
pele e osso.
Estranhamente,
ele aceitou um
pequeno pedaço
de comida...
dia a dia, ele
se foi
aproximando
mais, sem
receio dos
dois cães...
Me via e vinha
logo correndo,
saltando do
muro para o
chão, tendo eu
de afastar os
cachorros, de
seu hábito
matarem todos
os felinos que
entrassem no
quintal.
E o gato, de
cor clara,
parecendo com
sangue de
siamês, mais
manso se
mostrou:
indiferente
aos cães, de
vez em quando
uma sapatada
sem unhas
afastava os
focinhos.
Veio entrando
em casa, com
sua malga com
a figura de
mikey com sua
ração sobre a
arca
frigorífica
para que o
Apolo e Ringo
não a
esvaziassem.
Sentado, em
fracos miados
frente ao
frigorífico,
pedia seu
leite,
deixando o
Apolo
aguardando que
ele terminasse
para avançar.
Passou a ser
hábito:
"queres
leitinho?" e
lá vinham os
dois, Gatto e
Apolo, para a
cozinha. O
Gatto,
maneando as
ancas e cauda
bem levantada
e Apolo sempre
olhando onde
estava o
pequenino
compincha para
se aproveitar
dos mimos: a
fatia de
mortadela, o
fiambre, o
chouriço, o
bocado de
carne crua.
Se o Ringo era
ciumento da
sua tijela
para com o
Apolo, o Gatto
verificava o
conteúdo de
cada
comedouro, ou
muitas vezes
afastava a
cabeçorra do
Apolo que
tinha seu
tamanho.
Muitas vezes,
o Apolo
empurrava o
Gatto para
ansiosamente
comer, ou até
os dois bebiam
ao mesmo tempo
da malga da
água.
Como passou a
casa a ser
fechada toda a
noite para não
ir dormir na
rua, brigando
com os outros
da sua
espécie; de
manhã, bastava
a dona colocar
os pés no chão
para os três
caminharem
para a porta a
fim de se lhes
abrir o portão
para darem sua
voltinha
higiénica no
bairro.
Tamanho não
importava:
cada um
"impunha" seu
peso para
passar à
frente dos
outros.o Ringo
sempre mais
expansivo ao
se pôr em pé e
nas suas
corridinhas.
O Gatto
conquistou seu
lugar na
família: numa
estranha
devoção, me
escolhia para
seu pedido de
ir fazer o
xi-xi ao
quintal(nunca
conspurcou a
casa), miando
virado para a
janela do
quarto de um
modo mais
aflitivo.
Noites passou
a meu lado, na
cadeira de
plástico, me
fazendo
companhia ao
longo da
madrugada.
Para chamar a
atenção,
unhava a
cadeira,
sossegando nas
festas,
virando para
ser coçado no
ponto que ele
desejava, ou
até lhe ser
passado o
pente no
queixo, nas
faces, no
pescoço.Muitas
vezes se pisou
a cauda, tanto
por nós como o
Apolo com seus
60 quilos:
miava na dor
mas nunca
tomou qualquer
atitude
agressiva:
nunca mordeu,
arranhou ou
"cardou" se
mexido na
barriga.
Farejava de
muito longe
quando a
Elaine mexia
em carne ou
peixe: logo ia
para o lado
dela em miados
fraquinhos,
esperando que
se lhe dessem
na boca em
pequeninos
pedaços,
porque não
apanhava do
chão, ficando
para o Apolo.
Apolo, se
sentava,
esperando que
o Gatto
satisfeito se
afastasse com
sua preguiça a
esticar todo o
corpo.
Mas tinha seu
defeito: o
manso em casa
se mostrava de
total
agressividade
para qualquer
gato que
invadisse seu
território: se
algum até
trepasse numa
árvore, ele o
puxava para o
chão para se
lançar como
fera; todos os
dias, mais uma
cicatriz, uma
ferida, uma
unha partida e
lá vinha a
água
oxigenada,o
desifectante.
De banho, não
gostava: se
debaixo de
duche com água
morna,
esbugalhava os
olhos e
berrava como
se tivesse
chegado o
último dia de
sua vida; mas
isso se
resolveu,
quando passou
a ser numa
bacia já com a
espuma de
shampu.
Tentava sempre
fugir, mas sem
nunca ser
agressivo,
depois
esfregado numa
toalha felpuda
e absorvente.
Fazia a sua
vida
programada: de
manhã deitado
na área de
serviço, à
tarde
desaparecia
para ao
anoitecer ser
detido quando
me vinha pedir
para o levar à
ração, lhe
pegar ao colo
para não ter o
trabalho de
saltar cerca
de 80cm em
altura.
Ontem, noite
escura, ouvi
seus dois
miados aflitos
à entrada da
porta da sala.
Seu ventre
descaído,
olhos
semi-cerrados.
Levei-o para o
sofá, onde
soltou vómito
amarelado.
Suas unhas
estavam
desfiadas de
tentar saltar
o muro e sem
forças
descair, mas
tinha
conseguido
regressar.
Tinha
conseguido
vencer o
obstáculo e
vir me
procurar para
o socorrer.
Procurou a
companhia quer
do Ringo, quer
do Apolo, se
chegando a
eles na sua
perda
consecutiva de
forças
De manhã,
começou a
correria em
encontrar um
veterinário
que soubesse
sobre felinos.
Primeira
clínica,
segunda
clínica onde
poderia ser
radiografado
ou até
operado. No
meu colo, seu
miado solto
quando se
passava sobre
algum
quebra-molas,sua
boca
salivando,
aberta..
Se ficou, de
agulha de soro
no braço
listrado, numa
morte calma,
como se
tivesse
apagado por
interruptor
vagaroso.
Olhei para
ele, me
recordando que
nunca tivera
qualquer gato,
na minha
preferncia por
cachorros.
Revivi o que
ele nos 3 ou 4
meses fora meu
amigo, dos
cachorros, da
dona, à sua
maneira
independente-dependente.
Com ódio de
mim mesmo, por
saber que
nunca me
deveria
agarrar ao que
quer que seja,
mas com a
consciência
que tudo lhe
fiz para ele
se sentisse
feliz.
Vontade de o
chamar ao
portão da rua:
"onde está o
Gatto?" e como
que visão já
passada, o ver
a correr para
casa ou a
fingir nada
ouvir olhando
ou se coçando
de focinho
virado para o
lado
contrário.
Esvaziar a
tigela,
arrumar a lata
colorida da
ração, guardar
no depósito do
quintal a sua
cesta
almofadada,
esvaziar o
plástico com
fundo coberto
de areia, me
libertando de
olhar para as
coisas que lhe
tinham
servido.
Sinto a falta
dele, sinto
sua ausente
presença na
casa, no
quintal onde
ele sempre me
acompanhava
quando regava
ou tratava da
orquídeas e
das roseiras:
ficava
deitado, de
mãos
recolhidas no
peito, me
olhando
curioso.
Me é doloroso,
ver a carrada
de areia
espalhada lá
no fundo do
terreno onde
ele adorava
fazer suas
higiénicas
necessidades;
onde ele
esfregava o
focinho na
esquina; onde
ele cheirava
delicadamente
a grama para
retardar a
entrada na
casa, passando
por baixo do
lento Apolo,
empurrando
suavemente o
Ringo na porta
da cozinha.
Fica a
lembrança de
quem mostrou
humilde
amizade,
subentender
seu
reconhecimento
por deixar a
fome e o
desamparo, a
sua ternura de
ao passar por
mim, esfregar
levemente a
cabeça nos
meus pés
pendurados do
sofá, como que
dizendo:
"pronto!cheguei,estou
aqui!"
Fica
descansado,
meu Gatto:
dentro de mim
fica o rasgão
da perda da
tua companhia |