Vinha a noite. Teus passos no silêncio absoluto pressentidos, latejavam no coração. No sangue, havia bodas de amor. O mundo éramos nós , mais o encanto daquele rouxinol que sinfonizava a noite e que dizíamos ter sido enviado para orquestrar nossa paixão. Teus lábios exalavam a doçura do Divino mel. Noite adentro, ficávamos inebriados na loucura de juras e beijos que devem ser o néctar e paixão dos deuses.

A eternidade habitava nossos olhos e, nunca, a morte, parecera tão sem significância. Havia no teu rosto divinos fulgores , nele se dissipavam todas as minhas dúvidas sobre o eterno. A pacificação da noite, o enlace das almas , terá sido o acorde musical que presidiu à pauta da criação do mundo. A fusão das almas na noite é o ponto onde todos cânticos da divindade rejubilam, porque, aí , se entroniza o amor , primeira e única razão de ser na vida.

Para inventar teu rosto, só Deus. Conheci-O através de ti. Acredito. Havia um regato que corria despercebido durante o dia. Noite fora, nos fulgores da paixão, também ele cantava uma terna e mística serenata. Espantava-me nunca lha ter ouvido. O vento soava a carícias, a noite exibia a esplendorosa harmonia, serenada na fusão da almas possuídas no Amor.
É verdade, amada, deveríamos morrer quando somos felizes, quando toda a paixão do mundo acontecia em nós e, a absoluta felicidade , era o encontro dos nossos olhos, de mãos entrelaçadas.

A noite tinha a brevidade de um instante .Todas as carícias se renovavam no desejo de perpetuar as minhas mãos no teu rosto, minha alma evolou-se em cânticos de ternura e, por ti, se divinizou.
É verdade amada, à mesa do amor, saciamo-lo pouco mais de três meses. Tu volveste, de fruto no ventre, ao barro da nossa imparável condição humana .Quase não tive tempo de afagar teus cabelos e aprisionar o brilho dos teus sempiternos olhos deificados na ternura, naquela tão tua dulcíssima expressão. Tudo tão breve. Tudo tão eterno.

Voltei, vinte anos depois, fui ao alpendre, só, de madrugada, examinei os refegos dos adobes -- minha loucura -- a ver se desocultava resquícios da tua voz, perscrutar vestígios do teu rosto porventura, represados no local exacto onde fundíamos nossos lábios.
Pelo portão carcomido, entrava agora um clarão de luar. Ainda imaginei que surgisses a qualquer instante num sopro da alma, a ciciar num murmúrio de vento—creio ser esta a forma de expressão do espírito -- para reafirmares que lá do etéreo lugar, as nossas juras de amor permanecerão eternas.

Sabes, queria materializar o teu espírito, não apenas em recordação, mas na visão presente do teu rosto. Chorei, não lágrimas convulsas, mas daquelas que sufocam a alma e trazem o alívio de te pressentir num divino regaço de luz e serenidade, afagada por Deus que me terá julgado indigno de ti, ou julgado a tua beleza, do rosto e da alma, demasiada para o mundo. Por mistérios que nunca me será dado saber, resolveu colher-te em flor, de rebento no ventre.

Ainda esventrei o silêncio, sentei-me na soleira da porta da sala da casa da tia Aninhas, que era o local domingueiro da nossa paixão, aguardando que o milagre da ressurreição acontecesse.


Despertei então, para um outro sentir da morte. Na distância dos lugares que testemunharam os celestiais idílios, ainda é possível reviver a ternura de um amor sepultado. Ali, na presença do lugar exacto, a tua ausência foi morte repetida.

Quando visito o mármore da tua guarida, são dois os tormentos que me revisitam: saber irrepetível a divina doçura do teu amor e a crudelíssima mágoa de nunca desvendar , porque se finou a pessoa amada, aos vinte e cinco anos, às portas de germinar o fruto de uma paixão que dizíamos mil vezes bendito por Deus.
 

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