A fotografia nos encanta desde os tempos da prata halógena, quando uma imagem quase invisível, latente, podia-se revelar com o vapor de mercúrio, e mesmo não se olhando diretamente para os olhos do imperador, a história cabe numa bela fotografia. Conta-nos então que uma noite Daguerre guardou uma placa sub-exposta dentro de um armário, onde havia um termômetro de mercúrio que se quebrara. Ao amanhecer, ele constatou que a placa havia adquirido uma imagem bastante densa, tornando-se visível.

Assim surgia a fotografia, para nunca mais fugir aos olhos do homem, que apenas tinha conhecimento das imagens artesanais, nem sempre perfeitas, produzidas por pintores e desenhistas.

Mas a nova concepção de realidade conturbou sobremaneira o mundo cultural e artístico. Não se podia entender como a fotografia pudesse vir se alojar à época, a não ser em substituição das tradicionais formas de representação. Ainda a discussão se a fotografia era ou não arte, mesmo que trouxesse sua áurea de veracidade estampada a cada pedacinho de papel. Daí o espanto. Diante de tamanha beleza real, impossível acreditar que a fotografia existisse ou dispusesse de um "gênio" próprio; um gênio que segurava o momento no exato instante do acontecido: do sorriso mais apropriado, do olhar mais revelador e da expressão mais realista; ou ainda de uma paisagem permanente que refletisse o estado natural das coisas, ou em constante desordem, ou, talvez, bem armada pela natureza para nos fazer sentir pequenos.

O certo é que esse harmonioso clic mecânico não haverá amanhã com a mesma graça e naturalidade e pontualidade existencial. O acontecimento de agora não se transporta para o momento seguinte do mesmo jeito de hoje; permanece estático em alguma moldura sobre um móvel qualquer, sem com isso parecer vazio muito menos solitário, ao contrário, preenche o vazio de alguém sem espaço e preso a uma provável solidão; noutras ocasiões, enche o ambiente de alegria, de vida, de saudade e esperança. Existe, portanto, em cada fotografia um significado, por isso não posso concordar com a idéia de que ela seja invisível, se a vemos de diversas posições distintas, de acordo com o sentido que a ela imaginamos dar; se podemos ver através um campo imenso de possibilidades seguindo a própria conveniência e imaginação e a justeza dessas fotos que tanto nos interessam.

Ah, sim, a partir do momento que se é olhado pelas lentes da máquina, tende-se a se imaginar melhor, mais bonito, mais claro, transformando a própria existência em algo apenas imaginário para se ser projetado (incomparável) na tela do melhor pintor, vendo-se a si mesmo de forma exuberante e única.

É inegável o fascínio que a fotografia exerce nas pessoas, como um princípio à aventura que nos permite existir, pular, viver, e sem essas estripulias talvez não existisse a foto; e sem a foto talvez não fôssemos tão perfeccionistas.

O fato é que ninguém fica indiferente a uma fotografia.

"Ensaio sobre fotografia" - Achel Tinoco

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