Autor do texto: Marco Antonio Spinelli

Mais uma vez as imagens eram estarrecedoras. 

A fumaça alta, as cinzas em um chão fumegante. 

A Vovó mais uma vez deparou-se com a netinha 
com os olhos estatelados na televisão. 

Teria sido outro ataque terrorista? 

Mais um avião arremessado contra vidas inocentes? 

O locutor da rede de TV era bastante prudente ao comentar as imagens, 
como o fora no Onze de Setembro, 
até o segundo avião se chocar com as Torres Gêmeas. 

A velha senhora aproximou-se de sua neta
 e pousou a sua mão enrugada em seu ombro. 

A voz da menina saiu em um quase sussurro.
- Vó?
- Oi?

- Por que os aviões não param de cair?

- Bem, meu amor, acidentes de avião acontecem,
 como de carros, de trens... 
Onde temos seres humanos no controle ocorrem descuidos, 
falhas, acidentes... 
Eu já te falei, meu bem, somos obras imperfeitas de Deus...

- Mas esse avião caiu por acidente? Em Nova Iorque de novo?
- Não sei se foi um acidente, querida, muita gente vai dizer que não... 
Mas, de qualquer forma, como a Vovó já te falou, 
o mundo está passando por uma grande crise - repetiu, 
de forma quase inaudível: Uma grande crise...

- Vó?

- Oi?

- Por que temos que passar por tantas crises?

- Não sei, meu bem, não sei... 
Acho que o nosso mundo vai evoluindo de crise em crise, 
de confronto em confronto de homens 
que se acham donos da única verdade,
 da única forma correta de fazer as coisas.

- A menina coçou a cabeça, em seu gesto característico.

- Mas ... Mas...

- Fala, minha querida...

- Eu não entendo, Vovó. Não entendo porque os aviões continuam caindo...

- Colocou-a aconchegada em seu colo.
- Sabe, quando a Vovó era uma menina, como você, 
tinha uma brincadeira maravilhosa, que a mãe dela fazia,
 que chamava "Ache o seu presente".

- E como era essa brincadeira?
- As pessoas grandes, quando chegava o Natal,
 pegavam os presentes do Papai Noel
 e escondiam em um lugar bem difícil. 
Mas amarravam um fio, uma fita, 
no presente que ia se desenrolando, desenrolando, 
desenrolando até chegar em nossa mão. 
Aí, a gente pegava o fio e ia enrolando de novo, com muita paciência,
até ele nos levar até nossos presentes. 
Demorava horas até a gente chegar em nossos presentes.

- Por que demorava tanto?

- Por que os fios eram enrolados e acabavam fazendo nós pelo caminho. 
Aí, as crianças tinham de, pacientemente, desenrolar,
 desfazer os nós para continuar a sua busca, até chegar nos presentes.

- A menina ficou por um instante em silêncio,
 a Vovó como sempre adivinhou seus pensamentos.

- Sabe por que a Vovó contou essa história?

- Não.

- Por que essa brincadeira é como a vida. 

- A gente vive caçando o fio da vida para nos levar ao nosso presente: 
uns querem riqueza, outros querem conforto,
 algumas procuram por um verdadeiro amor... 
Está todo mundo procurando pelo fio da vida.

- E os nós?

- Que bom que você perguntou, meu bem! 

- Os nós são as crises, as dificuldades, 
os momentos em que temos que começar tudo de novo,
 para o ponto de partida, 
ou ficar um tempão desenroscando nosso fios das incompreensões, 
das mágoas, das injustiças, das trapalhadas que fazemos nessa vida. 

- E todo mundo pegava seu presente?

- Não, meu bem. A maioria ficava chorando, 
achando tudo aquilo muito difícil, outros se irritavam e jogavam o fio fora, 
outros pediam para os pais trazerem os presentes...

- E você?

- Eu?

- É... E você?

- Eu sempre ia até o meu presente, mesmo que demorasse o dia inteiro.

- E o presente era legal?

- Os meus presentes eram bem simples, 
porque o Papai Noel de meus pais era muito simples,
 mas eu ficava tão feliz de ter achado meu presente 
que para mim era a coisa mais importante do mundo.

- E os outros?

- Acho que os outros que não se esforçavam tanto,
 não gostavam tanto de seus presentes. 
Sabe, meu bem, quando estamos em crise, 
quanto mais tempo ficamos a chorar no meio do caminho,
 ou quanto mais socos damos no ar, mais difícil de completar a nossa busca. 
Mais difícil acharmos nossos presentes.

- A menina franziu a testa, entendendo onde a velha senhora queria chegar.

- Querida?

- Oi, Vovó?

- Vamos fazer mais um minuto de silêncio 
e vamos rezar por todas as pessoas que tem perdido a sua vida 
e seus parentes nesse tempo difícil?

- Vamos.

Deram-se as mãos, e rezaram baixinho.

- Vó?

- Oi?

- Você continua enrolando o seu fio?

- Continuo, meu bem.

- E qual o presente que você está procurando, 
quando acabar de enrolar o seu fio?

- Espero encontrar com Deus.

- A menina olhou com surpresa.

- Nossa! O seu presente é muito legal!

- A Vovó sorriu, 
enquanto pedia pelas pessoas que estão sofrendo em todo mundo.

Mensagem enviada por Belise

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