D. António - Prior
do Crato
A Junta
Governativa, logo que morreu o Cardeal-rei D. Henrique, tomou
conta dos negócios do Reino, mas nada fez em benefício de
Portugal. A maioria dos governadores era partidária do rei de
Castela, que não desistia das suas pretensões à Coroa de Portugal.
D. António, Prior do Crato, aclamado em Santarém, foi o único que
se lhe opôs.
Nesta altura, Filipe IIº de
Espanha, tinha preparado já um grande exército que, comandado pelo
duque de Alba, entrava em Portugal pela fronteira do Alentejo. As
poucas tropas portuguesas esperavam o inimigo junto à ponte de
Alcântara; mas, apesar da bravura com que se portaram, foram
derrotados em Agosto de 1580 (Batalha de Alcântara), porque os
castelhanos eram em maioria esmagadora.
O Prior do Crato teve de fugir
para França, e Portugal perdeu a sua independência.
Assim, terminou a 2ª dinastia
dos reis de Portugal, para dar lugar à 3ª, conhecida por dinastia
Filipina ou da Casa de Áustria.
Interregno
Reúne-se de urgência o Conselho de Estado, em Setúbal. Os
Governadores do Reino, tal como Judas, estavam vendidos a Filipe
II, que pagara sete mil ducados a cada. Nada se decide.
Em Santarém, o Bispo da Guarda propõe que D. António seja
proclamado Defensor do Reino. Por todo o lado se ouve: "Real,
real, por D. António, Rei de Portugal".
D. António é aclamado em Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Braga,
Bragança. Os Governadores vendidos, fogem para Castela.
D. António, durante um mês, toma conta do Reino, cunha moeda e
administra. O Duque de Alba, estuda a melhor estratégia, conta com
alguns traidores. A 16 de Julho de 1580 toma Setúbal, a 21 cerca
Lisboa. No dia 25, D. António prepara-se para lhe dar combate com
um exército de 8000 homens, mal armados e sem experiência de
guerra, mesmo assim, a primeira investida dos espanhóis é
rechaçada. Recuperado da reacção inesperada, o Duque de Alba com
23000 homens, bem equipados e só preparados para fazer guerra,
vencem a batalha de Alcântara.
D. António foge. Portugal submete-se. O Duque de Alba fica a
governar Portugal. Só a ilha Terceira resistiu por mais algum
tempo.
O período mais negro e mais triste da história de Portugal tinha
começado. Foi uma amarga lição que ficou gravada, eternamente, na
memória dos portugueses.
A falta de lucidez de um jovem príncipe e a traição de alguns
portugueses, vendidos aos castelhanos, quase amortalharam o país.
Com a Pátria morre também a maior glória nacional, Luís de Camões
(1524-1580) começa os Lusíadas na prisão, sai para a Índia onde se
bate em várias expedições militares, segue para Macau onde deve
ter acabado o poema. Publica os "Lusíadas" em 1572. O rei D.
Sebastião outorga-lhe uma tença de quinze mil - réis anuais, que
não devia ser suficiente, para este homem de génio e cultura
superior, cujos sonetos são de beleza ímpar e o poema épico, "os
Lusíadas", o cântico espiritual que anima e identifica este povo.
Morre doente e na mais completa miséria, a 10 de Junho de 1580.
É publicado o livro "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto, tinha
sido 13 vezes cativo e 17 vendido. Os feitos tão fantásticos,
embora verdadeiros, que os amigos, quando o chamavam, gracejando,
diziam: Fernão, mentes? Minto.
Reúne-se de urgência o Conselho de Estado, em Setúbal. Os
Governadores do Reino, tal como Judas, estavam vendidos a Filipe
II, que pagara sete mil ducados a cada. Nada se decide.
Em Santarém, o Bispo da Guarda propõe que D. António seja
proclamado Defensor do Reino. Por todo o lado se ouve: "Real,
real, por D. António, Rei de Portugal".
D. António é aclamado em Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Braga,
Bragança. Os Governadores vendidos, fogem para Castela.
D. António, durante um mês, toma conta do Reino, cunha moeda e
administra. O Duque de Alba, estuda a melhor estratégia, conta com
alguns traidores. A 16 de Julho de 1580 toma Setúbal, a 21 cerca
Lisboa. No dia 25, D. António prepara-se para lhe dar combate com
um exército de 8000 homens, mal armados e sem experiência de
guerra, mesmo assim, a primeira investida dos espanhóis é
rechaçada. Recuperado da reacção inesperada, o Duque de Alba com
23000 homens, bem equipados e só preparados para fazer guerra,
vencem a batalha de Alcântara.
D. António foge. Portugal submete-se. O Duque de Alba fica a
governar Portugal. Só a ilha Terceira resistiu por mais algum
tempo.
O período mais negro e mais triste da história de Portugal tinha
começado. Foi uma amarga lição que ficou gravada, eternamente, na
memória dos portugueses.
A falta de lucidez de um jovem príncipe e a traição de alguns
portugueses, vendidos aos castelhanos, quase amortalharam o país.
Com a Pátria morre também a maior glória nacional, Luís de Camões
(1524-1580) começa os Lusíadas na prisão, sai para a Índia onde se
bate em várias expedições militares, segue para Macau onde deve
ter acabado o poema. Publica os "Lusíadas" em 1572. O rei D.
Sebastião outorga-lhe uma tença de quinze mil - réis anuais, que
não devia ser suficiente, para este homem de génio e cultura
superior, cujos sonetos são de beleza ímpar e o poema épico, "os
Lusíadas", o cântico espiritual que anima e identifica este povo.
Morre doente e na mais completa miséria, a 10 de Junho de 1580.
D. António Prior de Crato
Prior do Crato, filho do infante D. Luís, e neto de el-rei D.
Manuel. Foi um dos pretendentes à coroa portuguesa, quando faleceu
o cardeal rei D. Henrique.
Nasceu em Lisboa, em 1531, morreu em Paris a 26 de Agosto de 1595.
Sua mãe chamava-se Violante Gomes, de alcunha a Pelicana; era uma
israelita por quem o infante D. Luís se deixara fascinar.
Entretanto, parece ter sido convertida, porque D. João de Castro
diz que ela era: «dama humilde de nascimento, mas de rara beleza,
e que morreu professa no mosteiro de Almoster». Uma tal origem
devia ser prejudicial a D. António; sucedeu, porém, que dela mesmo
tirou vantagem, porque os judeus de Portugal se interessavam na
sua legitimação, para o tornarem capaz de suceder no trono, depois
da morte de D. Henrique, seu tio, pois entre eles havia muitos
parentes do lado de sua mãe. D. António tornou-se um vulto de
grande importância histórica. À sua educação não faltaram
cuidados; na infância foi confiado e recomendado aos frades do
convento da Costa, junto a Guimarães, seguindo depois, em 1548,
para Santa Cruz, de Coimbra, onde cursou as aulas, recebendo em 5
de Maio de 1551, tendo 20 anos de idade, o grau de licenciado em
artes na Universidade. Para entrar na carreira que lhe apontavam
as escolas em que havia formado o espírito, e para o qual seu tio
D. Henrique lhe afeiçoava a vocação, era indispensável
consagrar-se de preferência aos estudos teológicos. Neste intuito
foi para Évora receber lições de teologia de D. Frei Bartolomeu
dos Mártires.
Habilitado para o sacerdócio, seu tio cardeal lhe conferiu as
ordens de sub-diácono e diácono, professando ao mesmo tempo na
ordem militar de Malta, recebendo o priorado do Crato, um dos mais
rendosos e mais apetecidos de então; nunca quis tomar ordens de
presbítero. Não tardou que acentuasse o primeiro passo da sua vida
politica. D. Henrique assumira a regência do reino, o que promoveu
umas desavenças entre tio e sobrinho, dando em resultado D.
António partir para Madrid, onde se demorou por algum tempo na
corte de Filipe II. Regressando a Portugal, agitavam-se as grandes
lutas africanas, que foram as primeiras tentativas da fatal
guerra, que fez perder a nossa independência durante sessenta
anos. D. António, impelido também por aquela corrente vertiginosa,
partiu para Africa, chegando a assumir o governo de Tanger, em
1574, na substituição de Rui de Sousa de Carvalho. Acompanhou D.
Sebastião nas duas expedições à Africa, distinguiu-se na batalha
de Alcácer Quibir, não só pelo seu valor, mas pela dedicação com
que procurou sempre salvar a pessoa do rei. Foi feito prisioneiro
e conseguiu resgatar-se por meio duma astúcia que justifica os
recursos do seu grande génio. Com palavras de brandura e modos
humildes, convenceu os mouros de que era pobre, um simples padre,
tendo por património apenas um modesto benefício, sem o qual assim
mesmo ia ficar, por determinação pontifícia, provocada e merecida
pelo facto de haver abandonado a sua igreja. Nestes casos era um
cativo sem importância, e os mouros, que principiavam já a
considerá-lo um encargo inútil, aproveitaram a oferta de dois mil
cruzados, que veio a ser o preço do seu resgate.
Quando D. António regressou a Portugal, já D. Henrique havia sido
aclamado; teve uma recepção muito afectuosa; esses agrados, porém,
foram de curta duração. D. Henrique adivinhou as aspirações de seu
sobrinho acerca da sucessão do trono, e primeiro do que ele as
adivinhou talvez a influência espanhola que o dominava. Às
pretensões de D. António seguiram-se intrigas, desgraças, processo
sobre os seus direitos e bastardia. Romperam-se hostilidades
violentas, sendo a maior delas a promulgação da sentença, que o
declarava bastardo, mas que D. António conseguiu anular por meio
dum breve do papa Gregório XIII, com manifesta indignação e ódio
do cardeal‑rei, que se queixou amargamente deste breve, como de
uma notória afronta que se fazia a um rei justo e piedoso, a um
cardeal que prestara grandes serviços à causa da Santa Sé;
acrescentando que era prejudicial ao rei católico e ao sossego da
cristandade. 0 prior do Crato fazia deste breve um escudo contra
Filipe II, dizendo que o papa era o juiz natural das
legitimidades, porém Filipe apresentava contra ele dois documentos
que provavam irrefutavelmente a bastardia. Era o primeiro uma
informação achada entre os papéis do cardeal-rei, pela qual o
infante D. Luís suplicava ao papa Júlio II concedesse dispensa a
seu filho D. António para poder tomar ordens sacras, suplica
desnecessária e que não teria feito, se D. António fosse filho
legítimo. 0 outro documento era uma carta guardada pelo secretário
de estado Bartolomeu Fróis contendo a ordem dada por D. João III a
Lourenço Pires de Távora, para negociar em Inglaterra o casamento
do infante D. Luís, seu irmão, com a princesa Maria, filha de
Henrique VIII, de Inglaterra, aquela que depois foi rainha, e
casou com o príncipe Filipe, mais tarde rei de Espanha, o que
provava não ser o infante casado com Violante Gomes, como
afirmavam os judeus. Além disso, D. António passava sempre por
bastardo, e o testamento de seu pai assim o tratava. No
entretanto, as inteligências do prior do Crato com a França eram
importantes; repetidas cartas para Catarina de Medicis a instruíam
dos receios que tinha por ver que o cardeal‑rei se unia com o rei
de Espanha contra ele, e davam-lhe a conhecer a intenção de ir
estabelecer-se em França, no que já se notava pouca confiança no
resultado das suas pretensões, que afinal, nessa época, eram muito
limitadas, porque apenas desejava ser governador de Portugal e
receber uma pensão de três mil ducados transmissíveis a seu filho
mais velho.
Em 1579 escrevia a Catarina de Medicis o embaixador francês em
Lisboa, M. Vivonne de Saint-Goard, dizendo que desconfiava de D.
António, por ter querido entrar em ajustes com Espanha. Contudo, a
morte do cardeal-rei e algumas circunstâncias fortuitas, lhe
permitiram levantar temporariamente com altivez a cabeça, e
reentrar no grande combate que ia travar pela sua arriscada
posição. Nesta época é que realmente D. António se apresenta como
pretendente ao trono de Portugal. Filipe II recusara a proposta
que ele lhe fizera, de ser governador de Portugal, mas, depois da
morte do cardeal‑rei, foi quem pretendeu entrar em negociações,
receando da influencia que o prior do Crato tinha no povo. D.
Cristóvão de Moura, dizem, que serviu de intermediário, oferecendo
a D. António duzentos mil ducados sonantes para pagar as dividas,
cem mil de rendimento, durante a sua vida, para que não tivesse a
comodidade de casar-se, e o titulo de duque em vez do de príncipe,
que ele pedia e que Filipe não queria conceder, para que não se
deixasse a possibilidade de ser filho legitimo. 0 prior, porém,
exigia mais. A morte do cardeal aumentara-lhe as prevenções; pediu
duzentos mil ducados de renda, que tanto era o rendimento dos
infantes D. Luís, seu pai, e D. Duarte, seu tio; as terras e
rendas que desfrutara a falecida rainha D. Catarina, mulher de D.
João III, o governo de Portugal, o grão mestrado de S. Tiago, a
nomeação de vice-rei da Índia, de governador do Brasil e de
capitão general de Africa, mais a faculdade de dispor, por sua
morte e à sua vontade, de cem mil ducados de renda. Filipe, ao
princípio, fingiu consentir, mas o prior do Crato, não se iludindo
com aquele assentimento simulado, aproximou-se de Lisboa, querendo
fazer sobre esta cidade a sua primeira tentativa. Viu, porém, que
contava demasiado com a popularidade, que julgava ter adquirido, e
retirou-se a Belém, e dali para Almeirim, submetendo-se
fingidamente aos estados do reino. De Almeirim seguiu a Santarém,
onde, às intimações que lhe mandou fazer Filipe II, respondeu com
uma recusa formal. Como não tinham transpirado as negociações
secretas que anteriormente propusera, esta recusa foi considerada
um grande heroísmo. D. António fez-se então aclamar em Santarém, a
24 de Junho de 1580, pelo povo entusiasmado, que jurou morrer em
defesa dos seus direitos e da independência do reino. Alenquer,
fiel ás antigas tradições da sua lealdade e patriotismo, abraçou a
causa de D. António, o qual esteve algum tempo hospedado no
convento de S. Francisco, recebendo ali as homenagens das
autoridades, de que se lavrou um auto, que ele assinou a 22 de
Julho do referido ano. Este auto ainda existia no ano de 1758, no
arquivo da câmara daquela vila. Os governadores, por essa ocasião
reunidos em Setúbal, não o reconheceram como rei, porém D.
António, sem perder um instante, veio a Lisboa, reservando para
mais tarde ocupar-se dos governadores. D. João Telo de Meneses,
pela sua parte, quis defender-se em Lisboa, mas à proporção que D.
António se aproximava, ia modificando a resistência, e quando ele
chegou à capital, já D. João Telo consentiu em recebe-lo, se não
como rei, ao menos como defensor do reino. 0 povo foi quem se
entusiasmou, sendo apenas acompanhado por um vereador, indo ao
encontro do novo rei. 0 pomposo discurso com que o Dr. Manuel da
Fonseca Nóbrega o veio cumprimentar, indemnizou D. António da
pouca consideração que lhe testemunharam o clero e a nobreza; uns
e outros se tinham abertamente declarado contra ele e até contra a
duquesa de Bragança, cedendo à proposta de ajustes com Espanha,
proposta feita pelo cardeal‑rei nas cortes de Almeirim, em 11 de
Janeiro de 1580; e além disso, pelas promessas e dinheiro que
Cristóvão de Moura prodigamente dispendida. 0 prior do Crato
prosseguia, contudo, no engrandecimento da sua causa; foi aclamado
em Lisboa, assistindo à aclamação o embaixador francês; repartiu
muitos cargos no paço, jurou manter os privilégios dos vassalos,
escreveu cartas circulares a todas as cidades e vilas para o
reconhecerem por seu soberano. Esperava, portanto, que em breve
todo o país lhe fosse fiel, e conseguiu ainda que algumas cidades
adoptassem o seu partido. Os governadores foram obrigados a sair
de Setúbal, e seguiram para Castro Marim, e, apenas saíram,
Setúbal também aclamou a D. António. Estes triunfos aproveitaram
por tal modo ao seu prestígio, que o duque de Bragança chegou a
entrever um carácter nacional. D. António esperava socorros da
França, que mandara pedir, primeiro por um português chamado
Barreto, depois pelo cônsul francês Dora, mas a prudente Catarina
de Medicis não mandaria esses socorros antes de ver o caminho que
tomavam os acontecimentos, para se não declarar abertamente contra
Filipe II, carácter obstinado em ódios e vinganças. 0 prior do
Crato também se via exausto de recursos pecuniários; os meios
empregados para os obter, prejudicavam-lhe a popularidade,
quebrando-lhe assim a sua única e verdadeira força. Eram impostos
sucessivos lançados sobre os mercadores; a emissão de moedas de má
fabrica e do mais baixo toque; os mosteiros forçados a darem toda
a prata que tinham. Não encontrando na milícia burguesa quem
quisesse ser ministro nestas execuções fiscais, empregou a milícia
negra, que organizara em Lisboa; e era ainda com a ajuda desta
barbara soldadesca que obrigava os frades a pegar em armas.
Entretanto, o duque de Alba tratava de conquistar terreno a todo o
transe. Comprava as resistências, quando não podia captar as
vontades. Chegando à frente de Estremoz, defendida por D. João de
Azevedo, este quis resistir em nome dos governadores e não de D.
António, mas a praça tomou o partido de capitular, as portas
abriram-se, e D. João de Azevedo foi mandado preso para Vila
Viçosa. Henrique de Gusman tornou Évora, depois Setúbal, e,
ganhando terreno, obrigou D. António a tornar a entrar em Lisboa.
A esquadra e o exército de Espanha apoderaram-se de Cascais e da
Torre de S. Julião; o exército marchou sobre Lisboa. Ao chegar à
ponte de Alcântara, em Agosto de 1580, D. António tomou-lhe o
passo capitaneando as poucas foras de que dispunha, dando renhida
batalha, na qual praticou rasgos de bravura, mas em que ficou
ferido e derrotado (V. Alcântara, Batalha de). 0 prior do Crato
acolheu-se disfarçado nos subúrbios de Lisboa, e segundo a
tradição, a ultima noite que pernoitou na capital, foi no palácio
da rua dos Poiais de S. Bento, onde era a loja de papel de
Veríssimo José Baptista, muito conhecido em Lisboa, cujo palácio
está hoje transformado em prédio, em que se vê uma papelaria.
Dizem que nos títulos da propriedade se mencionava este facto. D.
António fugiu para o norte; e atravessando Lisboa a galope, parou
a cinco léguas de distância, passando depois a Santarém, onde
reuniu o resto das tropas que lhe restavam, e dali seguiu às
províncias do norte, onde, depois de ter ocupado sucessivamente
Coimbra e Aveiro, se fortaleceu no Porto, mas não tardou que fosse
expulso pelo general D. Sancho de Ávila, que fora mandado em sua
perseguição. Então D. António, sem soldados e sem recursos, viu-se
forçado a vaguear disfarçadamente pelo Minho, recebendo
hospitalidade nos conventos, nas casas fidalgas e, ainda com mais
frequência, nas choupanas; e assim andou errando durante todo o
resto do ano de 1580.
A sua cabeça fora posta a preço. Filipe II dava 80 mil ducados a
quem lha apresentasse, e, contudo não houve uma pessoa, nem mesmo
entre as mais pobres, que se tentasse e atraiçoasse o prior do
Crato. Estando em Aveiro, D. António mandou a França um novo
emissário, D. António de Brito Pimentel, e finalmente, quando já
estava refugiado nas montanhas, mandou ainda D. Jerónimo da Silva.
Catarina de Medicis e seu filho, Henrique III, mostraram-se bem
dispostos a favor do infeliz pretendente, e mandaram-lhe um navio
para o trazer a França. D. António já tentara evadir-se a bordo
dum navio que dera à costa, voltando o príncipe à sua triste
peregrinação. 0 navio francês por muito tempo não ponde receber a
seu bordo o proscrito, tal era a vigilância activíssima que o
marquês de Santa Cruz, almirante espanhol, desenvolvia. Afinal, em
6 de Janeiro de 1581 conseguiu embarcar, e pôde transportar-se
para Calais, sendo auxiliado na fuga por um frade franciscano.
Chegado a Calais, resolveu visitar a rainha Isabel de Inglaterra,
que o recebeu afavelmente, dando-lhe muitas esperanças, que se
desfizeram em desilusões. Embarcou então com destino à França, e a
6 de Outubro de 1581 estava no castelo de Eu, onde o esperava o
duque de Alençon, irmão do rei, com o qual teve uma entrevista.
Seguiu depois a Dieppe, visitou o conde de Vimioso, Filipe Strozzi
e outros amigos, que sempre se lhe conservaram fiéis. Partiu para
Paris, e no caminho recebeu muitas homenagens; Henrique III foi ao
seu encontro até Nantes. Em Paris teve uma recepção com honras de
rei; hospedou-se no Louvre. Nestas homenagens havia uma intenção
reservada. 0 plano da França era humilhar a influência da Espanha
e alcançar o Brasil, que D. António prometera, se subisse ao
trono. Armou-se uma esquadra de cinquenta e cinco navios,
equipou-se um exército de cinco mil homens, distribuiu-se o
comando pelo capitão Landereau o por Filipe Strozzi, e, o que é
ainda mais, advertiu-se à Inglaterra, que lhe incumbia associar-se
com igual empenho a este movimento. Semelhante política não foi
bem recebida por toda a França. Levantaram se contra ela protestos
e conflitos. Entretanto D. António achava-se em Tours, onde as
circunstancias lhe eram ora favoráveis ora adversas. Se uns
defendiam a sua causa, outros a condenavam com a mesma energia.
Pronta a esquadra, fez-se à vela, trazendo a seu bordo o prior do
Crato, o conde de Vimioso, Rui Gomes e outros portugueses, M. de
Saint-Soléne, Jean Beaumont e vários fidalgos franceses. Aportou
à ilha Terceira, onde a soberania de D. António fora reconhecida e
era sustentada pelo seu governador Cipriano de Figueiredo, que
conseguira desbaratar a expedição espanhola, que fora disputar-lhe
o governo. D. António foi bem recebido, porém o inimigo rugia-lhe
perto. As forcas castelhanas, comandadas pelo marquês de Santa
Cruz, tinham baluarte nos Açores. D. António meditou logo uma
batalha, que veio a ferir-se em Vila Franca do Campo, a 27 de
Julho de 1582. A luta era desigual, os castelhanos tinham a seu
favor a superioridade dos navios e das forças, e a táctica dos
oficiais. Foi esta a primeira batalha naval que se deu no alto mar
Atlântico. Os portugueses ficaram derrotados, sucumbindo o conde
de Vimioso e Strozzi, que eram dos melhores companheiros de D.
António, depois de combaterem corajosamente. 0 prior do Crato
refugiou-se na ilha Terceira, mas não desistindo do seu propósito,
entregou ao conde de Torres Vedras, D. Manuel da Silva, o governo
das duas ilhas, Terceira e Faial, que se conservavam ainda fiéis,
e partiu para a Europa.
A 29 de Dezembro de 1582 estava em Tours redobrando de esforços
com os governos inglês e francês, para que o auxiliassem. Neste
empenho eram-lhe favoráveis alguns diplomatas de nome conhecido,
como Lorde Burghley, M. de Vivonne de Saint‑Goard e outros.
Henrique III limitou-se a oferecer uma pequena força, comandada
por Aymar du Chaste, o qual dirigindo-se à Terceira, assistiu à
queda desta ilha e da do Faial, que no fim de muita resistência,
já haviam capitulado. Antes de terminar o ano de 1583, Aymar du
Chaste regressou a França com os que tinham podido escapar da
expedição e às crueldades do marquês de Santa Cruz; o conde de
Torres Vedras fora decapitado. A hora fatal do desterro soou então
para D. António. Refugiado na aldeia de Rueil, próximo de Paris,
em princípios de 1584, padeceu grande doença e chegou ás ultimas
privações, que eram partilhadas por dois dos seus filhos naturais,
D. Miguel e D. Cristóvão. A miséria era tanta, que às vezes
passavam unicamente a pão e água, e os criados que se lhe
conservavam fiéis chegaram a estar dias sucessivos sem comer, sem
soltarem o mais leve queixume. 0 que se torna singular, é que
neste estado tão aflitivo, foi quando D. António manteve mais
austera a sua dignidade, recusando com altivez as propostas de
Filipe II, que lhe prometia pagar as dividas e dar-lhe uma quantia
avultada em troca da desistência dos seus direitos à coroa
portuguesa. Em Rueil todos o respeitavam; os habitantes
pediram-lhe como grande honra que fosse colocar a primeira pedra
da igreja que iam construir. Até 1793 via-se nesta igreja uma
inscrição, dizendo que fora D. António I, rei de Portugal, quem
colocara a pedra fundamental daquele edifício em 1584. D. António
ainda fez várias tentativas, que foram infrutuosas. Filipe II não
deixava de persegui-lo, e quatro assassinos, por sua ordem,
pretenderam matá-lo, o que obrigou D. António a fugir, indo
abrigar-se na Bretanha no castelo de Auray, que Catarina de
Medieis lhe ofereceu. Não se julgando seguro, porque o duque de
Mercoeur, governador da Bretanha, estava em boas relações com a
Espanha e parecia disposto a entregá-lo, refugiou-se no castelo de
Beauvoir, pertencente à duquesa de Loudunois; ainda dali, D. João
Heredia, sobrinho do marquês de Santa Cruz, sendo enviado por
Filipe II, tentou arrancá-lo à forca das armas, mas não o
encontraram, porque D. António fugira para a ilhota de Sossimo. 0
castelo foi então saqueado. Em Agosto de 1585, Henrique III
promulgou cartas patentes, declarando que o príncipe D. António
estava debaixo da sua protecção, fustigando severamente os que se
tinham atrevido a molestá-lo. Porém a autoridade de Henrique III
era pouco respeitada em França, e D. António foi refugiar-se na
cidade protestante de La Rochelle, onde afinal se pôde considerar
seguro.
Vendo, porém, os seus negócios paralisados, e crendo que em França
poderia ser acometido com alguma punhalada pelos agentes de Filipe
II, passou à Inglaterra em 1586. A rainha Isabel mostrava-se
inclinada ao proscrito, a Holanda também o olhava com atenção, e
Catarina de Medicis, despertada por tantas benevolências, que
poderiam prejudicá-la, convidou-o a voltar para França, mas D.
António recusou. Filipe II exigia da rainha Isabel a extradição de
D. António, e ao mesmo tempo assalariava Miguel Vaz para ir a
Londres envenená-lo. A Inglaterra, seduzida pelas promessas de D.
António, chegou ainda a armar uma esquadra de 30 navios, com 12
mil homens, a qual se fez de vela a 1 de Abril de 1589. Nesta
expedição, comandada por John Norris e Francis Drake, vinha D.
António; seu filho D. Manuel, e outros homens notáveis, e entrou
no Tejo a 24 de Junho seguinte. 0 ataque sobre a cidade custou
milhares de vidas, mas Lisboa estava esmagada por um jugo de
ferro, e a armada teve de retirar-se, e com ela D. António, que
recebera o último desengano. 0 resto da vida passou-o, errando de
França para Inglaterra, como que ao acaso; sentindo
avizinhar-se-lhe a morte, escreveu de Paris uma série de cartas à
rainha de Inglaterra, ao rei de França, ao príncipe Maurício de
Nassau, ao conde de Essex e à princesa de Orange. 0 assunto destas
cartas era o pedido duma esmola para os filhos que iam perder seu
pai. D. António foi sepultado no convento grande dos franciscanos
em Paris, mas o coração ficou depositado no convento da Ave Maria,
da ordem de Santa Clara, ao lado do altar-mor, com um longo
epitáfio em latim, que vem publicado no 1.º vol. da Biblioteca
Lusitana, de Barbosa Machado, a pág. 191. D. António, na hora
extrema, pediu que os seus ossos fossem trasladados para Alenquer,
e os sepultassem no coro do convento de S. Francisco; seu filho D.
Manuel também manifestou este desejo, porém não se cumpriram as
suas últimas vontades, porque os cadáveres do pai e do filho se
conservaram no estrangeiro, longe da pátria que tanto prezavam.
De diversas mulheres teve D. António dez filhos; foi homem
inteligente e muito ilustrado; além das cartas em que falámos,
escreveu também, em latim: Psalmi confessionales, que, foram
traduzidos em diversas línguas. Em 1653 publicou-se em Lisboa urna
tradução com o seguinte titulo: Soliloquios em que um peccador
arrependido fala com Deus, disposições para bem se confessar, e
industrias para bem morrer. Acharam-se em um escriptorio do
Serenissimo D. Antonio Principe Portuguez, na sua propria letra,
na lingua latina, com tradição que era obra do seu grande juízo, e
confissões feitas pelo seu grande arrependimento, agora traduzidos
e pouco acrescentados para melhor cadencia da lingua porugueza,
pelo P. Fr. Jorge de Carvalho, etc. Escreveu também: Panegyris
Alphonsi primi Lusitanorum Regis, Conimbricae, 1550; este
panegírico foi recitado pelo autor na presença de D. João III e da
rainha D. Catarina, quando em 1550 foram visitar a Universidade;
escreveu também a sua vida, em 3 tomos, com o título de Historia
do rei D. Antonio. Este manuscrito foi dado por seu filho D.
Manuel de Portugal, a Frei João Caramuel, que o conservou em
grande estimação. Acerca do prior do Crato há publicados muitos
livros, tanto nacionais como estrangeiros, de que nos dá relação o
Dicionário bibliográfico, de Inocêncio da Silva, vol. 1.º e 8.º
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume I,
págs. 604-606.
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