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HISTÓRIA de P O R T U G
AL
(Resumo)

(1750)

(1707-1816)
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Rei de Portugal e dos Algarves d'Aquém e d'Além Mar em África, Senhor
da Guiné e do Comércio, da Conquista e da Navegação da Etiópia, Arábia,
Pérsia e Índia |
D. José l - o "Reformador"
reinou de 1750 a 1776
Trabalho e pesquisa de Carlos
Leite Ribeiro
gentilmente cedido à Só
Karinho´s
Dezembro/2006 |
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D. José I |
A D. João V sucedeu seu filho D. José I, que logo nomeou para seu
primeiro-ministro, a quem deu todos os poderes, Sebastião José de
Carvalho e Melo, depois Conde de Oeiras e mais tarde, Marquês de
Pombal.
No dia 1º de Novembro de 1755, houve em Lisboa um violento sismo,
que destruiu grande parte da cidade e causou, mais ou menos e 6
minutos, 12 mil vítimas, entre mortos e feridos. Foi a partir
deste momento que Sebastião de Carvalho começou a evidenciar a sua
actividade e os seus predicados de estadista, pondo em execução
rápida as medidas que entendeu mais aconselháveis para acudir à
triste situação dos sobreviventes. Depois, mandou reconstruir a
parte da cidade demolida pelo terramoto, sob um plano novo, da
autoria do arquitecto Eugénio dos Santos.
Em 1758, saindo o rei a passear de noite, em carruagem foram
contra ele disparados dois tiros de bacamarte que o feriram
levemente num braço.
O Marquês de Pombal
,
que vinha exercendo o supremo poder com dureza e despotismo,
principalmente contra a nobreza, aproveitou aquele ensejo para
culpar do atentado alguns dos fidalgos que mais sombra lhe faziam.
Ao fim de poucos meses, e pelas razões expostas, eram barbaramente
executados em Belém (Lisboa), o Marquês a a Marquesa de Távora e
seus filhos Luís e José, o Conde de Atouguia, o Duque de Aveiro e
mais quatro indivíduos da classe popular, em 1759.
Subjugada a nobreza, O Marquês de Pombal pensou então em livrar-se
da Companhia de Jesus, de quem era declarado inimigo.
Aproveitando-se, pois, novamente, do atentado contra o rei, acusou
os jesuítas de instigadores da conspiração ,
o que nunca pode provar, e expulsou-os de Portugal,
confiscando-lhes todos os haveres.
O Marquês, exerceu uma acção preponderante em todos os variados
sectores da actividade nacional. São as seguintes as principais
reformas do seu tempo:
Instrução:
Fundou-se o Colégio dos Nobres e a Aula do Comércio;
Reformou-se a Universidade de Coimbra, criando-se as faculdades de
Filosofia e de Matemática;
Instituiu-se a Imprensa Nacional de Lisboa;
Criaram-se escolas primárias.
Agricultura, Comércio e Indústria:
Desenvolveu-se a cultura dos cereais;
Criou-se a Companhia dos Vinhos do Alto Douro;
Abriram-se muitas estradas;
Fundou-se a Companhia do Grão-Pará e Maranhão;
Protegeram-se as indústrias de lãs, sedas, vidros, papel, etc.,
tendo sido construídas fábricas no Fundão, em Portalegre, na
Marinha Grande e na Covilhã.
Exército e Marinha:
Reorganizou-se o Exército, tendo vindo para tal efeito a Portugal,
o distinto oficial alemão Conde de Lipe;
Fortificaram-se algumas praças de guerra;
Aumentou-se a frota guerreira e mercante com novas unidades, etc.
etc.
Em 1750 estalara a Guerra dos Sete Anos, entre a França e a
Inglaterra. Aquela nação, invocando o chamado Pacto de Família,
desejava o nosso concurso contra o poder naval da Grã-Bretanha.
(nota: o Pacto de Família era um contrato estabelecido entre os
monarcas da Europa, descendentes da família dos Bourbons, pelo
qual todos se haviam de ligar na luta contra a Inglaterra).
Portugal recusou-se com o fundamento de ser aliado da Inglaterra,
por tal motivo, as tropas francesas e espanholas invadem em 1762 a
província de Trás-os-Montes.
Mas o exército português, organizado pelo Conde de Lipe e sob o
seu comando, conseguiu expulsar do território nacional as tropas
invasoras, até que, no ano seguinte, se assinou a paz pelo Tratado
de Paris.
No reinado de D. José Iº foi abolida a Escravatura na Metrópole, e
os índios do Brasil foram tornados livres; também findou a
distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.
Vigésimo quinto rei de Portugal, filho de D. João V e da rainha D.
Mariana de Áustria. D. José l nasceu em Lisboa em 1714. Logo que
subiu ao trono, escolheu de imediato para seu ministro, Sebastião
José de Carvalho e Melo, depois 1º Conde de Oeiras e mais tarde
Marquês de Pombal. Neste reinado, no dia 1º de Novembro de 1755,
deu-se o terrível terramoto que quase destruiu completamente
Lisboa. Foi a partir daí que o Marquês de Pombal se revelou um
grande homem de Estado. D. José l entregou-lhe completamente a
direcção dos negócios públicos. A conspiração chamada "dos Távoras"
(*), aumentou ainda mais a influência de Pombal, como ministro. A
história do reinado de D. José 1, é a das reformas que Pombal
despertou o país do seu torpor de dois séculos, restituindo-lhe
alento e vida. Sem grandes qualidades de espírito líder, D. José
soube compreender o valor do homem, que o destino pusera a seu
lado, e teve o bom senso de lhe conservar intacta a sua confiança,
até ao derradeiro momento de sua vida. O seu corpo jaz na Igreja
de São Vicente de Fora (Lisboa).
(*) A CONSPIRAÇÃO DOS TÁVORAS": No dia 13 de Setembro de 1758, ao
regressar ao Palácio da Ajuda (Lisboa) de carruagem, depois de uma
entrevista (amorosa) nocturna, D. José l sofreu uma emboscada
tendo sido atingido no braço direito por alguns tiros de
bacamarte, disparados por desconhecidos. Logo recaíram as
suspeitas deste crime no Marquês de Távora, nos seus filhos Luís e
José, no seu genro, o Conde de Atouguia, no Duque de Aveiro e em
mais quatro populares. Todos foram condenados à morte depois de
atrozmente supliciados, no dia 13 de Janeiro de 1759, em Belém
(Lisboa). Se do estudo do obscuro e irregular processo que
condenou os réus, parece só culpabilizar o Duque de Aveiro. Em
relação aos Távoras, não conseguiram aduzir uma só prova, e cuja
inocência parece não ser menos irrefutável, sendo este caso, assim
como os martírios infligidos aos condenados, a maior mácula ao
desempenho do Marquês de Pombal.
Sob o governo do Marquês de Pombal, Portugal vira-se para o
desenvolvimento industrial, procurando assim reduzir as
importações de produtos estrangeiros. A partir de 1769,
intensifica-se o apoio à nossa indústria e, com este auxílio, as
fábricas nacionais de tecidos, louça, papel e vidro,
apetrecham-se, aumentado assim o produto nacional. A Covilhã e a
Marinha Grande, tornam-se os centros manufactureiros de Portugal.
O Marquês de Pombal seguiu em política a teoria do Mercantalismo,
primeiro aplicada ao comércio e depois à indústria. Surge por
parte do Governo, o máximo empenho em proteger os interesses
nacionais. Por isso, a esta política mercantilista seguida pelo
Marquês de Pombal, se chamou Nacionalismo Económico. Mas o
desenvolvimento industrial não foi acompanhado por outras medidas
que seriam muito importantes, como:
a emigração para as colónias, nomeadamente para o Brasil;
a agricultura foi esquecida o que obrigava a importar grandes
quantidades de produtos alimentares;
as vias de comunicação, tão necessárias ao transporte de produtos,
eram praticamente inexistentes;
o regime de ditadura económica e os monopólios concedidos a
alguns, impediam a iniciativa industrial e a liberdade na produção
e na circulação de produtos, aumentando assim as dificuldades já
existentes.
D.José I- O Reformador; 25.º rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 6 de Junho de 1714, faleceu em Ajuda a 24 de
Fevereiro de 1777. Era filho de el-rei D. João V, a de sua mulher,
a rainha D. Maria Ana de Áustria.
Tinha apenas 14 anos de idade quando foi contratado o seu
casamento com a princesa espanhola D. Mariana Vitória, filha de
Filipe V e da rainha D. Isabel Farnésio, celebrando-se a cerimónia
nupcial a 19 de Janeiro de 1729. Por morte de seu pai, subiu ao
trono, sendo aclamado a 7 de Setembro de 1750. Reconhecendo o
elevado valor de Sebastião José de Carvalho e Melo, pela forma
como se houvera em Londres e em Viena de Áustria, quando ali
estivera como embaixador durante o reinado de seu pai, D. José
chamou-o para seu lado como primeiro ministro, entregando lhe com
a máxima confiança a administração do reino. Esta deferência de
el-rei acarretou as maiores inimizades da nobreza e da Companhia
de Jesus contra o novo ministro, inimizades que já anteriormente
se haviam manifestado. O futuro conde de Oeiras e marquês de
Pombal, apenas entrou no exercício do seu elevado cargo, tratou de
fazer conhecer aos reis da Europa que Portugal tornara a ser uma
potência. No dia 1.º de Novembro de 1755, cinco anos depois da
aclamação do novo monarca, deu-se a lamentável catástrofe do
grande terramoto, que deixou Lisboa num montão de ruínas. Pode
dizer-se que foi desde então que principiou o grande poder de
Sebastião José de Carvalho. A extraordinária actividade com que
procedeu a prontas e acertadas providências em tão dolorosa
situação, atendendo às mais pequenas circunstâncias, resolvendo as
inúmeras dificuldades que a cada momento surgiam, castigando
severamente os malfeitores que se aproveitavam de tão grande
desgraça para violações e roubos, ainda mais redobrou a confiança
no monarca. Na verdade o marquês de Pombal muito conseguiu com a
sua administração enérgica, a despeito dos seus inimigos, a
nobreza e a poderosa Companhia de Jesus, que por meio das maiores
intrigas procuravam por todas as maneiras perde-lo no conceito de
el-rei, desejando que ele o demitisse a desterrasse do reino, mas
Sebastião José de Carvalho saía sempre vitorioso de todas essas
intrigas prosseguindo na honrosa missão a que se propusera de
levantar o país do abatimento em que estava, entregue à
preponderante influência dos jesuítas, tornando-o
consideravelmente próspero, animando as indústrias e as artes, e
impondo-o ao respeito das outras nações, que o olhavam
desdenhosamente, considerando-o uma nação pequena e de nenhuma
importância. O reinado de el-rei D. José foi um reinado glorioso,
graças aos esforços, à iniciativa enérgica, e à notável
persistência de Sebastião José de Carvalho na administração de que
se encarregara. A disciplina militar que tanto decaíra nos
precedentes reinados, foi restabelecida. Foi o general inglês
conde de Lippe, quem o ministro mandou chamar para reorganizar o
exército a regulamentar a disciplina. A cidade de Lisboa, saindo
do caos em que o terramoto a tinha deixado, foi em pouco tempo
reedificada, formando uma cidade soberba. Criaram-se as companhias
das Vinhas do Alto Douro a do Grão‑Pará e Maranhão; protegeu-se
muito a agricultura, a fábrica das sedas em Lisboa, as de
lanifícios da Covilhã, Fundão a Portalegre; a fábrica de vidros da
Marinha Grande; regulou-se a polícia interna e aumentaram-se os
rendimentos do Estado, reformou-se a Universidade de Coimbra que
reabriu com a máxima solenidade depois da reforma, em 28 de
Outubro de 1772, cujo ensino estava entregue aos jesuítas desde o
tempo do fanático D João III; animaram-se as artes,
restabeleceram-se novas manufacturas. Os produtos do Brasil também
foram aumentados; deu-se a liberdade aos índios, regulou-se e
reformou-se a administração desperdiçadora daquela nossa colónia
riquíssima; acabou-se com a diferença entre cristãos novos e
cristãos velhos; enquanto à instrução popular também o poderoso
ministro atendeu com o máximo cuidado, criando escolas em todas as
vilas do reino. Criou-se também o Real Colégio dos Nobres. Foram
restituídos os bens da Coroa usurpados; fundou a Aula do Comércio,
formulou novos regulamentos de comércio, estabelecendo feiras que
se tornaram florescentes; protegeu muito o comércio, obrigando as
casas inglesas do país a terem só empregados portugueses; limitou
o poder, restringiu o da Inquisição; atendeu cuidadosamente aos
negócios da Índia, suprimiu por inúteis os tribunais de Goa;
tratou-se da paz com o rei de Marrocos para tornar livre a
navegação da África. Fundou-se a Impressão Régia, hoje Imprensa
Nacional. A nobreza que possuía ainda um grande número de
privilégios, cada vez se mostrava mais hostil ao ministro
omnipotente, que não poupava a ocasião de lhos restringir. D. José
de Mascarenhas, que herdara a casa e o título dos duques de
Aveiro, pretendia que para ele passassem as comendas administradas
pelos antigos duques. D. José não lho consentira, por instigação
do seu ministro o que despertou no orgulhoso fidalgo um ódio
implacável contra o monarca. Os jesuítas aproveitaram este ensejo
para se vingarem do ministro, instigando o duque, era ideia de
que, se o rei morresse, o ministro perderia necessariamente o
grande prestígio que o acompanhava, porque a confiança ilimitada
de D. José era a base do seu grande poder. Morto o rei, se o
ministro sobrevivesse, ficaria completamente inutilizado.
Planeou-se a célebre conspiração, para que foram chamados os
Távoras, a qual se realizou em 13 de Setembro de 1758, e que teve
o terrível desenlace dos suplícios horrorosos que os acusados
sofreram na praça de Belém a 13 de Janeiro de 1759. Foi um
terrível exemplo para a nobreza, que se convenceu da
impossibilidade da luta com aquele poderoso inimigo. Sebastião
José de Carvalho e Melo, já então conde de Oeiras, que não
desanimara da empresa de livrar o pais da nefasta Companhia de
Jesus, activou mais as negociações diplomáticas que já tinha
encetado com a corte de Roma Foi uma luta gigantesca, porque a
Companhia de Jesus era um colosso que dificilmente poderia ser
derrubado. Os embaixadores estrangeiros haviam-se tornado hostis,
o papa hesitava, mas Sebastião José de Carvalho prosseguindo
implacável no seu plano, repetindo as queixas contra os jesuítas
tanto em Portugal, como no Brasil, prendeu uns poucos de padres,
mandou cercar de tropas os colégios e casas da ordem e
sequestrou-lhes os bens. Ao mesmo tempo mandava pedir licença ao
papa para mandar processar os jesuítas acusados de cúmplices do
atentado contra o rei. Depois de muitas dificuldades o papa
concedeu a licença, rogando porém, ao rei D. José, que não
permitisse que os padres fossem expulsos dos seus domínios. Este
pedido, contudo, não impediu que os jesuítas saíssem de Portugal,
pelo decreto de 3 de Setembro de 1759, saindo na noite desse dia
uma grande porção dos padres a bordo do brigue S. Nicolau, que os
levou para a Itália. Resultaram deste facto sérias pendências com
a cúria romana, e mostrando-se o núncio muito frio e até insolente
foi obrigado pelo enérgico ministro sair de Portugal sem mais
hesitação. Em 1775, por gratidão a el-rei D. José I, erigiu-se a
grande estátua equestre, que se ostenta na Praça do Comercio,
antigo Terreiro do Paço, nome porque é ainda mais vulgarmente
conhecido. O ministro destinava aquele monumento para o remate da
sua grandiosa obra da reconstrução de Lisboa. Na estátua figura o
medalhão do marquês de Pombal; foi construída pelo escultor
português Joaquim Machado de Castro e fundida em bronze pelo
tenente-coronel de artilharia Bartolomeu da Costa. A inauguração
realizou-se com grande pompa no dia 6 de Junho do referido ano de
1775, dia em que D. José completava 61 anos de idade. D. José
também exilou para as matas do Buçaco seus irmãos bastardos D.
António e D. José, conhecidos pelos meninos de Palhavã. Era muito
amigo das grandezas, assim como seu pai el-rei D. João V, e mandou
construir no paço da Ribeira um riquíssimo e vastíssimo teatro,
denominado a Ópera do Tejo, que ficou substituindo um teatro
pequeno que se havia armado na chamada Casa da Índia. Inaugurou-se
com extraordinária pompa no aniversário da rainha, em 31 de Março
de 1755, com a ópera de David Peres, Alessandro nelle Indie, e em
6 de Junho, aniversário do rei, cantou-se La Clemenza di Tito, de
António Mazzoni. 0 Seminário Patriarcal teve uns estatutos
especiais, que D. José referendou, com a data de 23 de Agosto de
1765. Na Biblioteca Nacional de Lisboa, dizem existir um exemplar
manuscrito destes estatutos, que se não imprimiram o qual tem a
rubrica de D. José, feita pelo seu próprio punho. No artigo
referente ao marquês de Pombal se tratará mais minuciosamente de
muitas das obras que tanto engrandeceram o reinado de D. José I.
Por morte do monarca, subiu ao trono sua filha D. Maria I, e o
grande ministro foi desterrado para as suas propriedades de
Pombal.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III,
págs. 1065-1066.
Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo)
Célebre ministro do rei D. José I, o mais notável estadista do seu
tempo, não só de Portugal, como de toda a Europa.
N. em Lisboa a 13 de Maio de 1699, sendo baptizado a 6 de Junho do
mesmo ano na freguesia das Mercês, então instalada na capela da
mesma invocação existente na rua Formosa, a qual pertencia a sua
família; fal. em Pombal a 8 de Maio de 1782. Era filho do capitão
de cavalaria e fidalgo da Casa Real, Manuel de Carvalho e Ataíde
(V. Portugal, vol. I, pág. 846), e de sua mulher D. Teresa Luísa
de Mendonça e Melo, filha de João de Almeida e Melo, senhor dos
morgados dos Olivais e de Souto do Rei.
Frequentou na Universidade de Coimbra o primeiro ano jurídico, mas
dotado dum génio versátil e dum insaciável desejo de dominar e de
não ser dominado, abandonou estudos, resolvendo-se a seguir a
carreira das armas, por julgar ser essa a sua vocação, e foi
assentar praça de cadete. Vendo, porém, que no serviço militar a
obediência era mais exigida que em Coimbra, pediu a demissão, e
entregou-se à vida ociosa, dedicando ‑se contudo ao estudo da
história, da política e da legislação. Alguns biógrafos dizem que
estas informações não se baseiam em factos irrecusáveis, mas o que
não oferece dúvida é que Sebastião de Carvalho, na sua mocidade
figurou no grupo dos capotes brancos um daqueles bandos de
fidalgos aventureiros que perturbavam com as suas orgias a
tranquilidade da capital. Enérgico, decidido, brioso, de figura
simpática, era bem visto pelas damas, e por ele se apaixonou uma
sobrinha do conde dos Arcos, D. Teresa de Noronha e Bourbon, dama
da rainha D. Maria Ana de Áustria, filha de D. Bernardo de
Noronha, e de sua mulher, D. Maria Antónia de Almada. Esta senhora
nasceu em 1689, casou a 17 de Julho de 1714 com seu primo António
de Mendonça Furtado, de quem enviuvou em Fevereiro de 1718, e
casou em segundas núpcias, a 16 de Janeiro de 1723, aos 34 anos,
com Sebastião de Carvalho. Os novos esposos foram viver para uma
quinta que o futuro conde de Oeiras e marquês de Pombal possuía em
Soure, e ali continuou com interesse os seus estudos de história,
de política e de legislação. Um seu tio, o arcipreste Paulo de
Carvalho, o apresentou ao cardeal Mota, ministro e valido do rei
D. João V, e pela influência deste prelado, foi nomeado em 1733
sócio da Academia Real de História Portuguesa, que fora fundada em
1720, tendo pouco depois a incumbência de escrever a história de
alguns dos monarcas portugueses, que nunca satisfez.
Em 1739 foi enviado a Londres como ministro plenipotenciário, e
ali prestou relevantes serviços, mostrando grande energia e não
vulgar inteligência, arrancando sobretudo ao ministério do duque
de Newcastle muitas das isenções para os negociantes portugueses
em Londres, que tinham em Lisboa os negociantes ingleses, e o
reconhecimento do direito que tinham as autoridades portuguesas de
punir os excessos praticados pelos capitães de navios ingleses em
terras e costas de Portugal. Sebastião de Carvalho sofreu em
Inglaterra o grande desgosto da morte de sua mulher, que faleceu
em 27 de Março desse ano, legando-lhe todos os bens da sua grande
casa. Durante o tempo que esteve em Londres, apesar das
instituições inglesas lhe não terem causado grande influência, o
que não pensou em implantarem Portugal, no entretanto, naquele
grande centro civilizador entregou-se ao estudo de todas as graves
questões administrativas. O rei D. João V ordenou-lhe, que
reunisse em Inglaterra uma colecção de bíblias hebraicas, e de
tudo quanto pertencesse a seus ritos, leis, costumes e policia, em
qualquer das línguas vivas. Aquela preciosa colecção chegou a
Lisboa no ano de 1743, e foi para a biblioteca do palácio real. 0
modo hábil como Sebastião de Carvalho dirigiu em Londres as
negociações de que fora encarregado, chamou para ele a atenção do
governo português, e, quando rebentou entre as cortes de Viena de
Áustria e de Roma uma discórdia relativa aos direitos de nomina da
cúria, tendo sido o governo português eleito para medianeiro, foi
Sebastião José de Carvalho nomeado para dirigir as negociações da
corte de Viena, para onde se dirigiu em 1715. Foi bastante feliz
nesta nova ocupação, e conseguiu sanar a discórdia e lançar as
bases do tratado entre as duas coroas, assim como depois conseguiu
apaziguar novas dissensões entre o imperador Francisco I e o papa
Bento XIV, por este não querer confirmar na pessoa do arcebispo
eleitor de Mogúncia uma multidão de benefícios, que o imperador
lhe concedia. Em Viena enamorou-se duma senhora da corte, D.
Leonor Ernestina Eva Wolfanga Josefa, condessa de Daun, filha de
Henrique Ricardo Lourenço, Feld-marechal general, conde de Daun do
Sacro Romano Império, e de sua mulher, D. Violante Josefa,
condessa de Bromond, em Bayersberg. O conde de Daun foi adversário
muitas vezes vitorioso de Frederico o Grande da Prússia. Estas
nobres famílias tiveram dúvidas em consentir no casamento, mas
mandando-lhe dizer a arquiduquesa rainha de Portugal, D. Maria Ana
de Áustria, que Sebastião José de Carvalho era de nobre
ascendência, acederam ao casamento, o qual se realizou em 18 de
Dezembro de 1745. Pouco tempo se demorou em Viena, porque se não
dava bem com o clima, e como o celebre medico Van Swieten, que o
tratava, lhe aconselhasse, que voltasse à pátria, Sebastião de
Carvalho pediu e obteve a sua demissão, e nos últimos anos do
reinado de D. João V regressou a Lisboa.
Em 31 de Julho de 1750 morreu o monarca, e subindo ao trono seu
filho D. José, a rainha viúva, que se tornara muito amiga da
mulher de Sebastião de Carvalho, que fora nomeada sua dama de
honor, instou com o novo soberano para que nomeasse o antigo
embaixador secretario de Estado dos negócios da guerra e
estrangeiros. Assim se fez logo no dia 3 de Agosto, sendo ao mesmo
tempo nomeado secretario de Estado da marinha o ultramar Diogo de
Mendonça Côrte-real, filho do antigo e célebre ministro de D. João
V. Com Pedro da Mota, secretário de estado, que o rei D. José
encontrou em exercício, ficou o ministério completo. Havia apenas
bem poucos dias que estava no poder, quando rebentou o terrível
incêndio do hospital de Todos os Santos, a 10 de Agosto do 1750,
que serviu logo para manifestar a energia e desembaraço de
Sebastião de Carvalho. Não tardou muito que o antigo diplomata
adquirisse no conselho do rei urna grande influência, que se quis
atribuir a diferentes causas, mas cujo motivo principal estava,
segundo as melhores opiniões, na inteligência superior e na
vontade enérgica do futuro marquês de Pombal, que facilmente
subjugou os seus colegas e adquiriu no ministério a iniciativa e a
preponderância. Os homens como ele, podem pelas circunstâncias ser
afastados do poder, mas apenas entram nele, assenhoreiam-se da
direcção suprema pelo direito da sua energia, da sua actividade e
do seu talento. Além disso, nenhum dos outros ministros era capaz
de lutar com ele. Diogo de Mendonça era homem tímido, Pedro da
Mota estava velho e cansado, Sebastião de Carvalho possuía em alto
grau a iniciativa e a audácia. Entrava no ministério com projectos
maduramente concebidos e com intenção firme de os executar,
quebrando todos os obstáculos. Era um reformador na mais larga
acepção da palavra. Tinha decidido levantar o seu país à altura da
civilização europeia, não recuando para isso diante de embaraços
de espécie alguma. Richelieu era o seu ideal; como ele, desejava
consolidar o régio poder com o fim do introduzir alterações
profundas no regime do Estado. Tinha em muitas coisas as ideias
erróneas do seu tempo, e também preconceitos pessoais, mas possuía
ideias administrativas de grande alcance. Conhecia os abusos do
regime existente, conhecia os vícios da governação, percebeu que
um povo, sob pena de se aniquilar, não podia persistir numa senda
oprobriosa, e, não lhe sendo estranho nenhum dos progressos da sua
época, vinha decidido a realizá-los à viva força, até sendo
preciso, desfazendo as resistências, passando por cima das
oposições, rodeando se de terror, e usando largamente do direito
repressivo; Carvalho tinha a consciência, o fanatismo da sua
missão reparadora. Fosse qual fosse o motivo, é certo que não
tardou a exercer no gabinete de que fazia parte, uma influência
exclusiva. A primeira medida que tomou, revelou logo a sua índole
enérgica, mas também mostrou que o seu génio não poderia contudo
rasar horizontes novos em economia politica e eximir-se às
preocupações erróneas do seu tempo. Considerando como uma grande
desgraça para Portugal a dependência em que estava da Inglaterra,
e o tributo que lhe pagava todos os anos em somas enormes em
trocados artefactos que de lá recebia, entendeu que o modo mais
simples de acabar com essa dependência, era proibir debaixo de
penas severas a exportação de metais preciosos, querendo assim
restabelecer arbitrariamente a balança de comércio, exigindo que
os ingleses levassem de Portugal mercadorias correspondentes no
preço aquelas que nos enviavam. O grande ministro partilhava as
ideias erradas do seu tempo, e supunha, como quase todos os
estadistas do século XVIII, que a riqueza de uma nação consistia
essencialmente no instrumento circulante que apenas a representa.
Desde o momento que a produção agrícola e industrial do país não
era suficiente para o seu consumo, a moeda havia de sair
forçosamente, fossem quais fossem os meios que Sebastião do
Carvalho empregasse para a reter em Portugal. Os metais preciosos
são mercadorias como outras quaisquer sujeitas às leis económicas
da oferta e da procura. Ainda que Sebastião de Carvalho
conseguisse cativá-los em Portugal, não fazia mais do que
depreciá-los, fazendo subir de novo a preços enormíssimos os
objectos mais necessários à vida. Sucederia isso em Portugal, se o
contrabando não viesse restabelecer o equilíbrio que Sebastião de
Carvalho destruía. Afinal teve de revogar a medida, substituindo a
proibição por um imposto de 3 % que finalmente foi também abolido.
Mas enquanto a medida esteve em vigor, serviu para revelar a
inquebrantável energia do grande ministro. A Inglaterra mandou de
propósito a Lisboa um embaixador, lorde TyrawIey, que protestou
contra essa providência. Sebastião de Carvalho manteve-a; uns
oficiais da marinha de guerra inglesa que levavam para bordo ouro
amoedado foram presos. E entretanto continuava o ministro a pôr em
pratica o seu vasto plano de reformas, que tinha em alguns pontos
graves defeitos, mas que tinha a vantagem de ser perfeitamente
sistemático. A 17 de Janeiro de 1751 reduzia os direitos sobre o
tabaco e simplificava a sua cobrança; a 27 desse mês fazia o mesmo
ao açúcar. Depois proclamava e tornava efectiva a emancipação dos
índios do Brasil, medida verdadeiramente generosa e grande;
fundava depois a companhia privilegiada do comércio do Grão‑Pará e
Maranhão, que levantava resistências e protestos que ele quebrava
com a energia selvagem, própria do seu carácter. A Mesa do Bem
Comum peticionou contra o decreto que fundava a companhia, os seus
membros foram logo punidos com penas severíssimas. Outra medida
igualmente pouco acertada foi a concessão do comércio da Índia e
da China a Feliciano Velho Oldemberg; mas ao mesmo tempo mantinha
a ordem em Lisboa, que no reinado antecedente fora teatro das mais
escandalosas brigas, e fortalecia com sensatos regulamentos a
disciplina do exército.
Tratava de fazer a luz nesta caótica administração portuguesa,
quando um cataclismo terrível, o terramoto de 1 de Novembro de
1755, veio converter Lisboa num montão de ruínas e dar ensejo a
Sebastião de Carvalho para mostrar o seu génio organizador e a sua
assombrosa energia. Em presença do terrível desastre, encontrou-se
completamente à altura das circunstâncias. Proveu logo à
sustentação dos muitos infelizes que tinham ficado reduzidos à
miséria pelo terramoto, ao estabelecimento da ordem, não lhe
esqueceu enfim uma só das indispensáveis providências. Logo no dia
seguinte ao da terrível catástrofe, tratou da reedificação de
Lisboa com um plano muito mais vasto e muito mais regular do que o
da antiga cidade. A planta da nova construção foi traçada pelo
arquitecto Eugénio dos Santos. O ministro mandou demarcar o
terreno a cada proprietário, obrigando estes a levantarem as suas
casas dentro de certo prazo, sob pena de o perderem. Tiveram
também de se sujeitar ao plano do arquitecto, de que resultou a
regularidade da cidade baixa. Nas suas ruas agrupou os diferentes
mercadores, tomando elas os nomes das profissões diversas que ali
se enfileiravam. Prosseguiu com uma rapidez maravilhosa a
reconstrução da cidade, o que muito espantou o embaixador da
França, que não acreditava em semelhante milagre, e que dissera
para a sua corte, que não poderia Carvalho completar a obra que
empreendera. Urna das medidas mais proveitosas que o grande
ministro adoptou, foi a criação o dum imposto de 4 % sobre todas
as mercadorias que entravam na capital, que era um verdadeiro
imposto de consumo, e que rendeu somas enormíssimas, tanto que foi
com o seu produto que se construíram o arsenal de marinha e os
edifícios das secretarias na praça do Comércio; foi ainda com o
dinheiro adquirido por este meio, que se demoliram os restos dos
edifícios arruinados, e se efectuou a abertura de várias ruas
segundo o plano adoptado; além disso, ainda sobejou dinheiro para
se construir o arsenal do exército, para se levantar o forte de
Lippe em Elvas, que custou uns poucos de milhões, e para se
repararem e fortificarem muitas outras praças do reino. O
terramoto de 1 de Novembro de 1755 foi a verdadeira origem do
grande poder de Sebastião de Carvalho. A sua energia produzira uma
impressão profundíssima no rei D. José, que desde então começou a
dispensar-lhe uma cega confiança, que a rápida popularidade que
adquiriu, ainda mais confirmava, não bastando a
contrabalançarem-na os ódios e as invejas da nobreza, que se não
ocultavam nem disfarçavam. Ainda nos primeiros meses que se
seguiram ao grande cataclismo, continuou em Lisboa a rapina em
elevado grau, mas Sebastião de Carvalho mandou levantar forcas bem
altas, onde expôs mais de 100 cadáveres, o que parece ter
produzido o mais salutar efeito. O rei começou daí por diante a
seguir em tudo os ditames do seu ministro. Para lhe obedecer, deu
o exemplo de andar vestido de briche nacional; em 1756 fez passar
Sebastião de Carvalho para a secretaria do reino, vaga pela morte
de Pedro da Mota, e nomeou para ministro da guerra e dos
estrangeiros D. Luís da Cunha Manuel, que era completamente
criação sua. Descontente não se sabe porque motivo com Diogo de
Mendonça Corte‑Real, Sebastião de Carvalho mandou-o prender, e
deu-lhe por sucessor Tomé Joaquim da Costa Corte‑Real que também
pouco tempo depois foi desterrado para Leiria. Ao mesmo tempo
fundava Sebastião de Carvalho a Aula de Comércio, a companhia para
a pesca da baleia nas costas do Brasil, e a companhia para a pesca
do atum nas costas do Algarve. Com pleno acerto andaria, observa
um dos seus biógrafos, se se limitasse à fundação de companhias
privilegiadas que viessem fundar uma indústria nova, mas procedia
erradamente quando fundava a companhia privilegiada do comércio de
Pernambuco e Paraíba, e a das vinhas do Alto Douro, que vinham
explorar indústrias que não precisavam do privilegio para medrar.
A companhia de Pernambuco e Parabíba não encontrou grandes
resistências porque seguia pelo caminho do GrãoPará e do
Maranhão, mas a companhia do Alto Douro, que vinha ferir
mortalmente o livre comércio do Porto, levantou grandes
resistências. A 23 de Fevereiro de 1757 houve no Porto contra a
companhia um motim de alguma gravidade, mas que Sebastião de
Carvalho determinou logo considerar como uma rebelião formal
contra a pessoa do rei e os seus fautores como réus do crime de
lesa-majestade. Bem sabia ele que a revolta não tivera a
importância que lhe quis dar, mas convinha-lhe considerá-la assim,
em primeiro lugar para ensinar aos portuenses que não se
desatendiam impunemente as suas ordens, em segundo lugar para que
todos ficassem bem cientes de que se considerava tão inviolável
como a pessoa do rei, de que as suas ordens deviam ser tão
respeitadas como se as pronunciasse a própria boca do monarca, e
de que ninguém poderia alegar que se não queixava do rei, mas sim
do ministro, porque ele estava acobertado com o régio manto de D.
José, e dizendo sempre el-rei meu amo significava bem que entendia
governar como delegado do poder absoluto e sagrado do soberano.
Nomeou logo uma alçada, de que fazia parte o tristemente célebre
desembargador José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo, e
que condenou à pena de morte 21 homens e 9 mulheres, e a várias
penas menos duras 155 homens e 33 mulheres. A pena de morte
executou‑se no dia 11 de Outubro em 13 homens e 4 mulheres, porque
os outros conseguiram evadir-se. Este facto é de todas as
crueldades do marquês de Pombal a que maior nódoa lança na sua
memória, porque nunca foi tão desproporcionada a pena ao delito.
Quebrando assim, pela repressão dos tumultos do Porto, as
resistências municipais dirigidas contra a sua enérgica
administração, não pensava Sebastião de Carvalho senão em reprimir
igualmente o orgulho da nobreza, como depois todo se empregou em
despedaçar esse formidável poder organizado debaixo do nome de
Companhia de Jesus. Os fidalgos, impacientes com o seu despotismo,
rompendo a luta que ele estava ansioso por travar, deram-lhe
ensejo de os punir, e essa conspiração, cujo malogro foi a perda
da nobreza, também lhe deu depois ensejo para romper as
hostilidades contra os jesuítas. A nobreza, que possuía ainda
muitos privilégios, mostrava-se profundamente hostil a Sebastião
de Carvalho, que não poupava ocasião de os restringir. D. José do
Mascarenhas, que herdara a casa e o título dos duques de Aveiro,
pretendera que passassem para ele as comendas administradas pelos
antigos duques. O rei não lho consentira, por instigação de
Sebastião de Carvalho, e daí nascera o ódio fidagal votado ao rei
pelo duque de Aveiro. Apesar de todo o mistério que envolve os
factos relativos a este processo, parece incontestável que o duque
de Aveiro teve a ideia de assassinar o rei, que para isso falou ao
seu guarda-roupa Manuel Álvares Ferreira, e que este combinara o
crime com seu irmão e com o seu parente José Policarpo de Azevedo.
O que é incontestável, porém, é que na noite de 13 de Setembro de
1768, quando o rei recolhia numa carruagem à Ajuda, de uma
excursão nocturna e provavelmente amorosa, recebeu uns tiros entre
a Quinta do Meio e a de Cima, e que só se salvou de morte
infalível por uma série de acasos, que fizeram com que errasse
fogo um dos bacamartes e com que o cocheiro e o rei se lembrassem
de voltar para trás em vez ele seguir para o paço. O rei teve,
contudo, umas poucas de feridas, mas todas sem gravidade.
Sebastião de Carvalho, prevenido imediatamente, adivinhou de
relance que tinha ali o ensejo favorável para descarregar um
grande golpe na nobreza e talvez também nos jesuítas. Concebeu
logo o seu plano com um sangue frio extraordinário, deu ordem
rigorosa para que se guardasse acerca da ferida do rei o maior
segredo, espalhando-se simplesmente que o rei dera uma queda, e
depois de fazer todas as investigações necessárias com o maior
segredo, prendeu três meses depois, no dia 13 de Dezembro, todos
os indiciados no crime, sem lhe escapar senão José Policarpo de
Azevedo, e esse unicamente por não ter tido o marquês conhecimento
prévio da sua cumplicidade. Os indiciados não foram só o duque de
Aveiro e os seus criados, foram também todos os membros da família
Távora, contra a qual se não podia alegar a ser a principal entre
as famílias nobres descontentes, e a suposição de que o marquês
Luís Bernardo, cuja mulher fora notoriamente favorita do rei D.
José, estaria por isso gravemente ressentido contra o soberano. O
principal crime, porém, ou antes o crime único dos Távoras, era o
serem inimigos declarados de Sebastião de Carvalho e ser a sua
casa o centro da hostilidade contra o grande ministro. Em todo o
caso lá se encontraram no processo indícios que foram reputados
suficientes, e além do duque de Aveiro, dos Alornas, Távoras e
Atouguias, foram também presas umas poucas de senhoras, a duquesa
de Aveiro, as duas marquesas de Távora, a condessa de Atouguia, a
marquesa de Alorna e sua filha. Ao mesmo tempo criou-se uma junta
ou tribunal de inconfidência, presidido pelos três ministros de
estado que deviam julgar os acusados. Foi esta a primeira e
enormíssima iniquidade do processo, nomear um tribunal especial, e
logo um tribunal assim presidido pelos secretários de estado, que,
ainda que não fossem directamente interessados, sempre eram os
representantes do rei, e por conseguinte juízes representantes da
parte. Esta junta de inconfidência vinha apenas tingir vagamente
com uma fórmula vã de justiça, a revoltante arbitrariedade da
sentença que se proferia. Correu este lúgubre processo envolto no
maior segredo, e o público só conhecia a sequência dele pelas
repetidas prisões, que vinham de quando em quando sobressaltar a
população. Os fortes das margens do Tejo povoava-os Carvalho com
os fidalgos mais conspícuos do reino, sem que nunca se soubesse
quais as provas que tinha contra cales e que deviam ser
completamente nulas, pois até contra alguns dos que foram
executados não podia haver senão muito leves e muito vagas
presunções. A respeito dos marqueses de Távora, por exemplo, é
certo que não houve no processo senão o depoimento do duque de
Aveiro, arrancado por incríveis torturas, ao passo que os criados
do duque nem nos tormentos confessaram que os Távoras estivessem
implicados na conjuração, ao passo que confessaram a sua culpa e a
de seu amo.
Também contra os jesuítas, é forçoso que se diga, não se pode
formular a mais leve suspeita justificada. Pois sem advogados, sem
julgamento contraditório, baseando-se nas presunções mais vagas e
nos argumentos mais contestáveis, promulgou a Junta da
Inconfidência uma sentença em que condenou à pena última, com
incríveis requintes de barbaridade, o duque de Aveiro, os
marqueses de Távora, a marquesa D. Leonor, José Maria de Távora, o
conde de Atouguia, Braz José Romeiro, João Miguel, Manuel Álvares
Ferreira e António Álvares Ferreira. Foi no dia 13 de Janeiro de
1759 que se executou a horrorosa sentença. Nesta conspiração tão
cruelmente punida, procurara o marquês de Pombal ver por todos os
modos se implicava os jesuítas, mas, não conseguindo encontrar
provas suficientes, contentara-se com as probabilidades. Desde o
princípio do seu governo travara com eles uma luta implacável. Os
jesuítas eram a sua grande preocupação, e razão tinha para isso,
porque eram um obstáculo invencível a todos os seus projectos de
reforma e de regeneração social. Dominavam em toda a parte,
reinavam nas consciências pelo confessionário, nos espíritos pela
educação, e a educação do povo dirigida por eles era a mais
funesta que podia ser, era a imobilidade perpétua, a condenação à
eterna futilidade e à eterna insignificância. Em todos os países
se sentia esta funesta influência jesuítica, mas em Portugal era
mais terrível ainda por causa das colónias, dominadas
completamente pelos jesuítas, principalmente as americanas. Logo
no princípio do seu governo, Sebastião de Carvalho tivera que
lutar com eles. Um tratado entre a Espanha e Portugal cedia ao
nosso país o Paraguai que estava completamente dominado pelos
jesuítas, e que resistiu ao nosso domínio. Foi necessário
empreender contra os paraguaios uma campanha em regra dirigida
pelo governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, como
para os lados do Amazonas for necessário que Francisco Xavier de
Mendonça, irmão de Sebastião de Carvalho, tomasse medidas
enérgicas para conseguir que se pudesse cumprir o tratado entre as
duas nações da península com relação aos limites
norte‑brasileiros. Irritado sobremaneira com esta resistência, o
grande ministro mandou aos governadores-gerais das colónias que
procedessem a um inquérito acerca dos costumes e dos actos dos
jesuítas. O resultado foi deplorável para aqueles padres. Além de
todos os defeitos inerentes ao espírito da regra, havia também já
a decadência profunda, e os vícios introduzidos na ordem pela
relaxação dos costumes. Ora Sebastião de Carvalho não estava
unicamente irritado contra os jesuítas pela resistência que eles
faziam às tropas no Paraguai, estava-o principalmente porque não
admitia nos seus sonhos de reformador social a existência dessa
companhia, que pretendia embaraçar o livre desenvolvimento do
espírito humano. A influência dos jesuítas na educação já estava
levantando sérias resistências; os oratorianos apresentavam-se
como seus émulos, e Luís António Verney, escrevendo o Verdadeiro
Método de Estudar lançava a luva aos jesuítas, e era apoiado
vivamente nesse princípio de resistência pelo grande ministro
português. Em todos os actos hostis ao governo quisera ele ver
sempre a mão dos jesuítas: na resistência da Mesa do Bem Comum à
fundação da companhia do Grão‑Pará e Maranhão, no motim do Porto,
e até no terramoto de Lisboa achara meio de se queixar deles. Era
uma hostilidade surda e implacável a que o grande ministro lhes
votara. Forte com os relatórios dos governadores que mostravam a
profunda corrupção da Companhia, Sebastião de Carvalho obteve em
Roma que um visitador fosse encarregado de proceder a um inquérito
e de reformar os abusos. Bento XIV nomeou para visitador o cardeal
patriarca de Lisboa. Sebastião de Carvalho aproveitou logo o
ensejo para conseguir que fossem suspensos do exercício da
confissão e da pregação em todas as dioceses portuguesas, e ao
mesmo tempo expulsou do Paço os confessores jesuítas que ali
havia. A ordem ameaçada assim por tão poderoso inimigo reagiu
energicamente, e dirigiu se ao novo papa Clemente XIII protestando
contra o procedimento do cardeal visitador. Mas Sebastião de
Carvalho, prosseguindo implacável no seu plano, e baseando-se
unicamente nos motivos de queixa contra o rei que podiam ter os
jesuítas por causa da expulsão dos confessores e na reconciliação
que pouco antes do negócio dos tiros se realizara entre os
jesuítas e o duque de Aveiro que estavam em relações bastante
frias, prendeu uns poucos de jesuítas, teve os colégios e casas da
ordem cercadas de tropas e sequestrou-lhes os bens. Ao mesmo tempo
pediu ao papa licença para mandar processar os jesuítas acusados
de cúmplices do atentado contra o rei. Depois de muitas
dificuldades concedeu o papa a licença pedida, mas rogou ao mesmo
tempo ao rei de Portugal que não expulsasse os jesuítas dos seus
domínios, pedido que não impediu que eles fossem expulsos de
Portugal por decreto de 3 de Setembro de 1759, mandando-se logo
para Itália pelo brigue S. Nicolau um carrego de jesuítas. Daí
resultaram pendências com a corte de Roma, o núncio mostrou-se
frio e até insolente, e Sebastião de Carvalho não teve a mais leve
hesitação em o mandar sair de Portugal, ao mesmo tempo que saia de
Roma o nosso hábil ministro, primo de Sebastião de Carvalho por
afinidade, chamado Francisco de Almada. A causa única deste
procedimento do conde de Oeiras, título com que fora agraciado por
decreto de 15 de Julho de 1759, era a guerra de morte que ele
declarara aos jesuítas, e não se imagine, como alguns
historiadores modernos querem fazer supor, que o único motivo que
o impelia era uma paixão mesquinha e o ódio que tinha aos
jesuítas. Não, o conde de Oeiras obedecia às mais altas
considerações que lhe ditava a sua inteligência superior. Na
convicção profunda que tinha de que fora a influência jesuítica, e
um espírito de fanatismo e a subserviência dos governos às
vontades de Roma que tinham levado Portugal a um estado de grande
decadência, entendeu que não havia reformas possíveis enquanto o
beatério predominasse no país, enquanto considerações devotas
viessem constantemente meter-se em todas as questões políticas.
Esta convicção germinando no seu espírito, adquiriu todos os
caracteres de uma paixão violenta. Não recuou diante das medidas
mais rigorosas, diante das iniquidades até para conseguir o seu
fim; mas só desse modo pôde sacudir o torpor que tolhia o
desenvolvimento do país, porque todas as suas reformas seriam
inúteis, se não conseguisse fazer sair o país do letargo em que o
sepultava o fanatismo religioso. Acerca da saída do núncio,
cardeal Acciaioli, que foi acompanhado até à fronteira de Espanha
por 30 dragões, deve ler-se a Historia do reinado de D. José, por
Simão José da Luz Soriano, vol. 1, pág. 431 a 445. A este grande
ministro se deve a manutenção austera das prerrogativas do poder
temporal contra as invasões da cúria, a ele se deve também a
extinção desse poder formidável, que pesava sobre as gerações, que
comprimia os espíritos, que entorpecia em Portugal todo o
pensamento civilizador. O que se torna notável é que os
enciclopedistas, em vez de aplaudirem as medidas desse grande
estadista, as censuravam e combatiam. É porque o conde de Oeiras
tinha grande desdém pelos escritores. A forma mesmo como ele
promulgava as suas medidas imortais, era antiga, e tinha como que
um cheiro reaccionário. Assim, efectivamente, a condenação do
Padre Malagrida pela Inquisição e o seu suplício num auto-de-fé,
são realmente actos pouco dignos de um homem como era o ministro
do rei D. José. Não queria ele, porém, dar força à Inquisição nem
restaurar os autos-de-fé. Esse foi o único que se realizou no seu
tempo, e o regulamento que impôs a esse tribunal terrível,
anulava-o completamente. Pouco tempo depois da morte do Padre
Malagrida, um acto de iniciativa numa questão de censura de
livros, que o inquisidor‑mor entendeu dever tomar, fiando-se na
sua qualidade de irmão bastardo do rei, rendeu-lhe o ser preso e
desterrado juntamente com seu irmão, outro menino de Palhavã, para
as matas do Buçaco. Este acto de audácia subjugou para sempre a
nobreza, e a criação da intendência de polícia ainda mais
contribuiu para a domar. Entretanto continuava o conde de Oeiras a
instar pela extinção da ordem dos jesuítas. A França, a Espanha e
Nápoles, tinham seguido o exemplo de Portugal, expulsando também
os jesuítas. O mesmo fez a corte de Parma; com essa, porém,
entendeu Clemente XIII que podia atrever-se, e reagiu contra a sua
medida, mas todas as outras cortes tomaram o seu partido, e
Clemente XIII morreu aterrado pela atitude que estava tomando para
com ele a Europa católica. Subindo ao sólio pontifício Clemente
XIV, voltaram Portugal e as cortes bourbónicas a insistir com o
papa para a extinção da Companhia de Jesus, e em 1773 conseguiram
finalmente, depois de grandes esforços em que tivera sempre a
maior parte o ministro português, arrancar ao papa a desejada
medida. Portugal deve ao marquês de Pombal, título a que Sebastião
de Carvalho foi elevado por decreto de 16 de Setembro de 1769,
imensos serviços, mas os maiores foram incontestavelmente a
expulsão dos jesuítas e a reforma da nossa legislação civil,
porque essas medidas significaram a renovação moral deste povo,
que se ia deixando adormecer num letargo de que talvez nunca
despertaria. 0 notável estadista adquiriu, por este facto, grande
influência em toda a Europa.
A sua política estrangeira foi sempre um modelo de firmeza e de
habilidade. Ainda assim, deve dizer-se, que os despachos
insolentes que se lêem em alguns livros de história, e que se
dizem dirigidos pelo marquês de Pombal a Lorde Chatam, são
completamente apócrifos. 0 que há de verdadeiro neste incidente é
que em 1764, tendo o almirante Boscawen queimado quatro naus
francesas nas águas de Lagos, o marquês de Pombal, sendo ainda
conde de Oeiras, exigiu e alcançou de Inglaterra uma satisfação
condigna. É muito louvável a energia com que o marquês de Pombal
sustentou a neutralidade do país na guerra dos Sete Anos,
neutralidade de que a Espanha e a França o queriam obrigar a sair.
Foi necessária uma guerra, e não hesitou. 0 exército estava ainda
completamente desorganizado, e o marquês chamou da Alemanha o
conde de Lippe, um dos bons oficiais de Frederico da Prússia, e o
príncipe de Mecklemburgo-Strelitz, e encarregou-os de organizar
solidamente as tropas portuguesas. E na verdade, a disciplina
rigorosa, introduzida pelo conde de Lippe, fez com que a campanha
de 1762, mal iniciada, acabasse dum modo feliz para nós. Os 10
anos que decorreram entre a paz de Fontainebleau em 1763 e a
reforma da Universidade em 1772 foram talvez os mais fecundos da
administração do marquês de Pombal. Desembaraçado da oposição dos
jesuítas, tendo quebrado todas as resistências, inclusivamente as
da Santa Sé, sabendo que em todo o país ninguém ousaria rebelar-se
contra as suas vontades, começou a aplicar largamente as suas
luminosas teorias em matéria de administração e a governar o país
com a energia e o génio de que dera tantas provas. As reformas, de
que tomou a iniciativa neste período de 10 anos, renovaram
inteiramente a face de Portugal, e o arrojaram por um caminho de
progresso, onde não tardou a pôr-se a par das nações mais
adiantadas. A primeira coisa, de que se ocupou, foi da
reorganização do exército. O conde de Lippe tratou de regulamentar
a disciplina; estabeleceram-se campos de manobras, e tomaram-se
enfim muitas outras providências. A construção de navios
fortaleceu a nossa marinha; o comércio e a agricultura também
foram favorecidos pelo marquês de Pombal, ainda que, na protecção
que lhes deu, se encontra o vestígio das suas erradas ideias
económicas. A intimação feita aos negociantes ingleses para terem
caixeiros portugueses, a regulamentação da Lavoura pela ordem que
mandava arrancar em muitos pontos as vinhas, que deviam ser
substituídas por trigais mostram que o grande reformador tinha tão
pouca confiança na liberdade em matéria económica como em matéria
politica. A indústria nacional mereceu-lhe os maiores cuidados,
como prova a protecção eficaz que dispensou à fábrica das sedas,
situada no Rato, em Lisboa, às fabricas de lanifícios da Covilhã,
Fundão e Portalegre, e à fabrica de vidros da Marinha Grande. O
sistema do terror é que sempre continuava a ser seguido por ele.
Enquanto abolia a distinção entre cristãos-novos e cristãos
velhos, entre canarins e europeus na Índia; enquanto suprimia a
escravatura no continente de Portugal, suprimia para a imprensa a
censura eclesiástica, substituindo-a, é certo, não pela liberdade,
mas pela jurisdição da Mesa Censória, o que já era um progresso,
porque tendia a secularizar o ensino, mandava enforcar o capitão
Graveron, acusado de peculato, mas sem haver contra ele provas
evidentes, e encarcerava no forte da Junqueira o bispo de Coimbra,
D. Frei Miguel da Anunciação, que era, sem dúvida, um dos chefes
do partido reaccionário, mas que enfim era um velho prelado, que
não se devia tratar com tanto rigor. O crime dele estava em
proteger uma seita chamada dos jacobeus ou sigilistas, fanáticos
perigosos, e sobretudo em resistir à instituição da Mesa Censória,
proibindo no seu bispado livros que este tribunal consentia que
corressem.
Uma das grandes glórias do marquês, de Pombal foi o imenso impulso
que deu à instrução popular. A lei de 6 de Novembro de 1772
organizava a instrução primária do modo mais completo para o
tempo. Estabelecia o princípio de concurso, animava o ensino
particular, dotava as escolas com o rendimento de um novo tributo
denominado subsídio literário. Favorecia a instrução secundária
criando escolas, que eram o germe dos nossos liceus actuais, e
convidando as ordens religiosas a que abrissem aulas nos seus
conventos; favorecia a instrução superior criando o Colégio dos
Nobres, e tratando de reformar a Universidade de Coimbra. Para
intentar essa reforma, criou‑se uma junta intitulada da
Providência Literária. A alma desse tribunal era o bispo de
Coimbra D. Francisco de Lemos, que foi nomeado reitor da
Universidade, por decreto de 11 de Setembro de 1772. Os estatutos
redigidos por esta junta, introduziram a revolução na
Universidade, substituindo aos velhos métodos legados pelos
jesuítas os processos mais audaciosos da ciência nova. Além das
reformas dos estudos, a nomeação de sábios lentes, alguns deles
estrangeiros de nomeada, concorreram muito para o brilhantismo
dessa reforma. Criou estabelecimentos auxiliares, de que
anteriormente nem sequer fora reconhecida a necessidade, como um
observatório astronómico, um museu de história natural, um
gabinete de física um laboratório químico, um teatro anatómico, um
dispensário farmacêutico, e um jardim botânico. O rei D. José, por
carta régia de 28 de Agosto de 1772, constituiu o marquês de
Pombal seu plenipotenciário e lugar-tenente na restauração da
Universidade. No dia 22 de Setembro entrou na cidade de Coimbra,
no dia 23 publicou o despacho de quatro colegiais para o Colégio
dos Militares; na manhã de 25 recebeu os novos colegiais dos
colégios de S. Paulo e de S. Pedro. Na tarde desse dia foi lida
com toda a solenidade e aparato, na sala grande da Universidade, a
seguinte carta régia:
«Honrado Marquês, meu Lugar-Tenente, muito prezado Amigo. Faço
saber a essa Universidade, como protector que sou dela, ser
servido reformá‑la, e por isso em Meu nome fareis tudo,
concedendo‑vos todos os privilégios, que são concedidos, aos
Vice‑Reis, e ainda aqueles que eu reservo para Mim. A mesma
Universidade o tenha assim entendido, e vos respeite todas as
honras, que vos são devidas, pois sois do Meu Real agrado e
protecção. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, em 13 de Agosto de
1772. ‑ Rei.»
No dia 29 do referido mês de Setembro foram publicados, com a
maior solenidade os novos estatutos, e no dia 30 prestaram os
novos lentes o competente juramento, na presença do marquês de
Pombal, no paço. A cerimonia de abertura da Universidade
realizou‑se a 23 de Outubro com imenso esplendor. Foi decerto este
o dia mais jubiloso da existência do notável estadista. Rodeado de
homenagens por um povo de cortesãos, que viam nele não o
representante do rei, mas o próprio soberano de Portugal, tinha
além disso a consciência a dizer-lhe que acabava de prestar ao seu
paìs e à civilização o mais elevado e o mais importante de todos
os serviços. A fundação da Imprensa Nacional de Lisboa completou a
obra do marquês de Pombal com relação ao nosso desenvolvimento
intelectual. Esta reforma da instrução pública, a mais importante
que tivemos, valeu ao nosso grande ministro a admiração e o
respeito da Europa. Mr. Montigny, encarregado de negócios de
França em Lisboa, não ocultava a sua veneração pelo homem, que
fizera com que houvesse neste pequeno reino tão mergulhado até
então nas trevas, 837 escolas de instrução primária e secundária.
O duque de Aiguillon, ministro que sucedera no gabinete de Luís XV
ao duque de Choiseul, dizia: «A opinião, que formamos dos talentos
e das luzes do marquês de Pombal, dá-nos a mais vantajosa ideia
das mudanças e das adições que esse ministro deve fazer nos
estatutos da universidade.» Quando se observa esta importantíssima
reforma, feita pelo marquês de Pombal, quando se vê que o grande
ministro soube arrancar o país das trevas da ignorância em que
estava imerso, a trazê‑lo à luz imensa, que de toda a parte se
irradiava pela Europa, quando se nota que todas as suas reformas
tiveram por fim, e conseguiram introduzir em Portugal todos os
elementos civilizadores tem de se confessar que o marquês de
Pombal foi neste extremo da Europa a incarnação viva e eficaz da
grande revolução do século XVIII, e que o seu enérgico despotismo
foi uma dessas ditaduras tirânicas mas fecundas, que em toda a
parte precederam e prepararam a aurora da liberdade.
Foi por este tempo que se concluiu a estátua do rei D. José, que o
grande ministro destinava para ser o complemento e o remate da sua
grande obra da reconstrução de Lisboa. A estatua do rei D. José,
em cujo pedestal figurava o medalhão do marquês de Pombal,
construída pelo grande escultor português Joaquim Machado de
Castre, fundida em bronze pelo tenente coronel de artilharia
Bartolomeu da Costa, inaugurou‑se com extraordinária pompa, na
Praça do Comércio no dia 6 de Junho de 1775. Nesta obra, vol. IV,
no artigo Lisboa, a pág. 330 e seguintes, está uma circunstanciada
descrição desta majestosa solenidade. Contudo, enquanto o marquês
de Pombal tomava providências tão sábias e tão justas, continuava
a seguir o sistema de repressão implacável. Os seus colegas no
ministério continuavam a ser as suas vítimas; José de Seabra, que
fora o seu braço direito na luta com os jesuítas, foi de súbito
desterrado para Angola por motivo misterioso. Tempo depois, outro
suplicio atroz veio assombrar Lisboa. Em 11 de Outubro de 1775 foi
esquartejado na Junqueira o genovês João Batista Pele, acusado de
tentativa de assassínio contra o marquês de Pombal. A Espanha
rompera de súbito as hostilidades contra nós, por causa dos
limites da América, e não nos quis dar satisfações. A França
preparou-se a auxiliá‑la em virtude do Pacto de Família, e a
Inglaterra abandonou‑nos. Apesar disso, o marquês de Pombal,
entendendo que estava empenhada nesta questão a dignidade da coroa
portuguesa, não hesitou em se preparar para a guerra; não cuidava
decerto que poderia afrontar a França e a Espanha com os nossos
limitados recursos, mas entendia também que, logo que o dever
falava, a questão da possibilidade desaparecia. Seria esmagado,
mas a sua defesa contra agressões injustas era já um protesto
contra a violência. Quando se preparava para esta luta, cometeu o
marquês de Pombal um acto de atrocidade, que não é dos que menos
mancham a sua memória. Tinham-se refugiado na Trafaria alguns
refractários, como se diria hoje. Sendo difícil apanhá-los naquela
aldeia pobríssima, o marquês de Pombal ordenou que se lançasse
fogo a essa povoação de pescadores. Essa ordem, executada
barbaramente em seu nome no dia 23 de Janeiro de 1777 devia encher
de pavor os últimos dias da existência de D. José, que faleceu no
dia 24 do mês seguinte de Fevereiro. Com ele expirava o poder do
marquês de Pombal. (V. Portugal, neste vol. pág. 738, no artigo de
Pina Manique).
A herdeira do trono, beata e dominada pelos nobres, era figadal
inimiga do grande ministro. Assim que o rei fechou os olhos, logo
o marquês percebeu que estava demitido. Sendo mordomo-mor, foi
avisado para que se não ocupasse do enterro do rei. Deram-se
largas aos seus inimigos, deixaram-se correr contra ele as maiores
calúnias. Soltaram-se todos os presos políticos que estavam por
sua ordem encarcerados, e o espectáculo miserando dessas vítimas
da energia implacável do marquês de Pombal devia exacerbar contra
ele a cólera do povo, sempre mudável. Em seguida foi demitido,
conservando-se-lhe secamente o ordenado de ministro, e
concedendo-se-lhe o rendimento de uma comenda. Dava-se-lhe ordem
para se recolher a sua casa de Pombal, e consentiu-se que o povo o
insultasse em casa e pela estrada, arrancava-se o seu medalhão do
pedestal da estatua de D. José e substituí-se pelo navio com as
velas cheias, que é o brasão de Lisboa, o que fazia com que ele
dissesse no seu retiro: Agora é que Portugal vai à vela. O que
houve de mais impudente nesta reacção foi o procedimento de
algumas pessoas, que, para lisonjearem o marquês de Pombal, tinham
feito com ele contratos em que eram lesados e que depois, quando o
viram caído, o demandaram para alcançarem indemnizações! Um tal
Galhardo Mendanha chegou a escrever a esse respeito um folheto que
por tal modo indignou o marquês de Pombal, que este pegou na pena
e respondeu com azedume e veemência num folheto que a rainha D.
Maria I proibiu que corresse. As acusações de concussão, de abusos
de poder ferviam, todos os amigos e parentes do marquês eram
perseguidos, e afinal a rainha D. Maria I, cedendo à pressão dos
inimigos do marquês e ao natural impulso da sua própria inimizade,
ordenava que o ministro de seu pai fosse processado. Para isso
enviou a Pombal dois desembargadores que sujeitaram o marquês a um
longo e penoso interrogatório, até que o grande homem, prostrado
pela doença, pela fadiga e pelas amarguras, pedia perdão à rainha
das faltas que podia ter cometido. Ao fim de 14 meses, a 16 de
Agosto de 1781, expediu a rainha um decreto no qual declarava que
havia por bem perdoar ao marquês de Pombal as culpas em que
incorrera, em atenção aos seus anos e enfermidades. Era uma última
mentira! Não o puniram, porque teriam de punir tombem a memória do
rei D. José. Esse decreto fulminou-o. Estava um pouco melhor dos
seus padecimentos, graças a um tratamento que adoptara. Piorou
outra vez de um momento para o outro. O seu orgulho sentia-se
profundamente ferido, a consciência do seu talento e dos imensos
serviços que prestara ao seu país, fez com que gastasse as suas
ultimas forças escrevendo uma Petição de recurso feita à
sereníssima rainha D. Maria I, em que mais uma vez tentou
justificar os seus actos. A opinião pública, ou o que então se
podia designar por esse nome, era-lhe adversa, ou pelo menos
indiferente. A petição caiu portanto no meio desta indiferença ou
desta aversão, e não produziu o mínimo efeito. Dez meses
sobreviveu ainda o marquês de Pombal ao funesto decreto, dez meses
de longos e incomportáveis padecimentos. Faleceu enfim o grande
estadista na sua casa de Pombal na idade de 83 anos. Na noite. de
11 de Maio de 1782 foi o cadáver conduzido num coche puxado por
três parelhas para a igreja do convento de Santo António da vila
do Pombal. Esperava-o à porta o bispo de Coimbra, D. Francisco de
Lemos, fiel à caída grandeza, que celebrou com toda a pompa as
exéquias solenes, sendo pregada a oração fúnebre pelo monge
beneditino Frei Joaquim de Santa Clara, notável orador sagrado,
que se inspirou na grandeza do assunto, e legou à posteridade um
magnífico discurso que atesta não só o seu talento mas a grandeza
do seu espírito. O Marquês de Pombal, quando faleceu, assinava-se:
Sebastião José do Carvalho e Melo, conde de Oeiras e da Redinha;
marquês de Pombal; do conselho do rei; alcaide-mor de Lamego;
senhor donatário das vilas de Oeiras, Pombal e Carvalho, e do
lugar de Cercosa e dos reguengos e direitos reais de Oeiras e de
A-par de Oeiras; direitos do pescado do Porto, de Peniche e de
Atouguia da Baleia; das rendas do pescado e direitos da dízima,
portagem, jugadas, oitavos de pão e quinais de vinho da vila e
porto de Cascais; e das tornas da sisa do pescado e sáveis de
Lisboa; padroeiro in solidum da paróquia de Nossa Senhora das
Mercês, da cidade de Lisboa, e das de Santa Maria da vila de
Carvalho e sua anexa, Santa Maria de Cercosa, no bispado de
Coimbra, e do convento de Nossa Senhora da Boa Viagem; comendador
das ordens de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila
Viçosa, etc. O seu brasão era o dos Carvalhos. Em campo azul uma
estrela de ouro, entre uma quaderna de crescentes de prata. Este
brasão também usam os condes da Retinha e os marqueses de Pomares.
Num rápido esboço resumiremos a notícia das grandes reformas
empreendidas pelo notável ministro do rei D. José I: Protegeu
eficazmente a indústria, levantando a decaída fábrica de sedas que
D. João V fundara, subvencionando e desenvolvendo as indústrias da
chapelaria e relojoaria, fez sair quase do nada a fábrica de
vidros da Marinha Grande, e a de papel da Lousã, tomou a
iniciativa do fabrico da porcelana, protegeu a industria das lãs,
e fundou a magnifica fábrica real da Covilhã. Teve a honra de
hospedar no seu palácio e quinta de Oeiras o rei D. José no Verão
dos anos de 1775 e 1776. Nessa quinta realizou uma grande feira
onde concorreram, por sua ordem, os produtos de todos os géneros
da indústria fabril portuguesa, vindo os donos das fábricas armar
barracas em Oeiras, expondo ali à venda os diversos produtos da
sua indústria Esta feira teve um êxito completo; foi uma
verdadeira exposição de tudo quanto se fabricava então em
Portugal, e assim teve Oeiras a honra de ali realizar a primeira
exposição industrial que houve no país, e talvez a primeira que se
efectuou em toda a Europa. (V. Portugal, neste vol. artigo Oeiras,
pág. 182 e seguintes). Favoreceu muitíssimo a agricultura, mas de
um modo demasiadamente despótico, mandando por exemplo arrancar as
vinhas do Ribatejo para ter produção cerealífera. Para desenvolver
o comércio criou a Aula do Comércio e fundou diversas companhias.
Na administração civil e económica do país operou maravilhas,
dando o primeiro passo para a liberdade da terra, suprimindo os
morgados insignificantes, regulando-lhes a sucessão e não
consentindo que se instituíssem senão morgados opulentíssimos,
declarou livres todos os escravos que nascessem ou pusessem pé no
continente de Portugal, emancipou os índios do Brasil, acabou na
Índia com a distinção entre gentios e cristãos, no reino com a
distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Com o clero
procedeu energicamente, expulsando os jesuítas, impedindo as
profissões demasiado numerosas de frades e de freiras; deu à
Inquisição um regimento que a anulava completamente; na instrução
pública reformou completamente a Universidade pondo-a a par dos
estabelecimentos científicos desse tempo no estrangeiro; criou o
Colégio dos Nobres, fundou a instrução primária portuguesa
solidamente, desenvolveu a instrução secundária, aproveitando para
isso largamente as ordens religiosas, refundiu completamente a
legislação, acabando com os arrestos absurdos, com os recursos aos
comentadores, etc. ordenou que o direito canónico apenas regulasse
em matérias espirituais. Criou o Erário introduzindo ordem e
método na administração da fazenda, criou no Conselho de Fazenda
um tribunal de contencioso financeiro, administrou com tanta
economia que não precisou recorrer a empréstimos, reorganizou
admiravelmente o exército com o auxílio do conde de Lippe,
fortificou Elvas de um modo assombroso, deu impulso à marinha e
soube apreciar e chamar ao ministério Martinho de Melo e Castro
que à marinha portuguesa prestou depois tão relevantes serviços, e
ocupou-se com zelo das colónias, acrescentou o nosso domínio
oriental com as Novas Conquistas, o nosso domínio africano com as
ilhas de Bissau, etc. De todos os chefes de governo que no século
XVIII iniciaram em todos os países da Europa as reformas que a
opinião pública reclamava, foi sem dúvida o marquês de Pombal o
mais audacioso. O ilustre ministro teve grande predilecção pela
cidade de Aveiro, por causa dum protesto representação em que a
câmara com a assistência dos nobres e povo, lavrou contra os
autores da conspiração do duque de Aveiro, D. José de Mascarenhas,
pedindo para que este fidalgo deixasse de ser donatário de Aveiro.
Esta demonstração dos aveirenses foi recebida com entusiasmo pelo
marquês de Pombal, que se deu pressa em agradecer à câmara,
assegurando-lhe que os desejos do povo, cujo representante era,
seriam satisfeitos, e que Aveiro, ficando pertença da coroa, havia
de ser beneficiada tanto quanto pudesse sê-lo. A palavra do grande
estadista foi cumprida. Aveiro entrou numa nova fase de progresso.
Melhorou-se consideravelmente a barra, criaram-se escolas e
procurou-se ensaiar novos sistemas de cultura, como foi a do arroz
e da batata. O marquês também pensou em estabelecer aqui urna
fábrica de tecidos de algodão, para o que mandou proceder a
experiências em 1770. Ainda empreendeu outros melhoramentos de não
menor alcance para os interesses da terra, que por decreto de 11
de Abril de 1759 elevou à categoria de cidade, e por decreto de 4
de Setembro de 1760, foi de novo elevada a comarca, que desde de
D. João III deixara de ser, para formar um almoxarifado, cujas
justiças eram providas pelo donatário. Em 28 de Setembro de 1773
pediu o marquês de Pombal o báculo de diocese para Aveiro, que lhe
foi concedido por breve apostólico de 12 de Abril de 1775, sendo o
1.º bispo D. António Freire Gameiro de Sousa. (V. Aveiro).
Devemos mencionar um acto de justiça nacional, relativo ao notável
estadista. Por decreto de 10 de Outubro de 1833 foi determinado
que a «imagem em bronze do marquês de Pombal, Sebastião José de
Carvalho, e Melo que havia sido arrancada do pedestal da estátua
equestre de el-rei D. José, fosse reposta no mesmo lugar».
Dizia-se no preâmbulo do decreto: «Que o marquês de Pombal fora o
português que mais honrou a sua nação no século passado. Que fora
ele distinto pelos seus conhecimentos variados, firme pelo seu
carácter; instruído pelas suas meditações e viagens; e sobretudo
dotado de um amor da pátria, de um zelo do bem público e de um
interesse pelo decoro e independência nacional que sempre o levara
nobremente a promover o bem do seu país, e a naturalizar nele as
vantagens da indústria, da civilização, do comércio e das artes.
Que a inconstância dos tempos e o capricho dos homens pretenderam
denegrir na pátria o conceito que nunca fora dela foi disputado a
tão ilustre génio, e fizeram, com ingratidão incrível, desaparecer
a sua imagem do centro daquela mesma cidade, que ele tinha feito
renascer das cinzas, para ser uma das mais belas capitais do
mundo. Influenciado por esta convicção, quis o duque de Bragança
tributar a devida justiça ao grande homem, e apagar os vestígios
de uma ingratidão, que a geração presente rejeitava a
responsabilidade e desaprovava o erro.» Este decreto era rubricado
pelo ministro do reino Cândido José Xavier. Os restos mortais do
marquês de Pombal foram trasladados para Lisboa, onde chegaram a 1
de Junho de 1856, em honroso préstito. Celebraram-se solenes
exéquias, sendo o cadáver depositado na capela das Mercês,
pertencente aos marqueses de Pombal. Num mausoléu de mármore
figurando um modesto caixão colocado sobre dois desengraçados
elefantes, que se vê na capela-mor e no lado direito do altar, se
encerra o que resta do grande e notável estadista. Em Maio de 1882
celebraram-se pomposas festas em comemoração do centenário da
morte do marquês, tanto em Lisboa, como no Porto e na Universidade
do Coimbra, que em 1872, 10 anos antes, havia celebrado também o
centenário da reforma da mesma Universidade.
Sobre o grande ministro do rei D. José tem‑se escrito muito, tanto
em Portugal, como no estrangeiro. A relação dos principais
trabalhos encontra-se no Dicionário bibliográfico, vol VII, pág.
213 a 216; e no suplemento, volume XIX, peIo Sr. Brito Aranha, de
pág. 17 a 184, onde também se encontram muitas gravuras dos carros
que figuraram no cortejo cívico, por ocasião das festas do
centenário, gravuras das ruínas causadas pelo terramoto de 1 de
Novembro de 1755, e diversos documentos. Além dessas obras, ainda
citaremos: «Le marquis de Pombal», na Revue des deux mondes, 1.º
de Setembro de 1870; Historia da Instrucção publica em Portugal,
por D. António da Costa; Ensaio sobre a historia do governo e da
legislação de Portugal, de Coelho da Rocha; Perfil do marquez de
Pombal. de Camilo Castelo Branco; O marquez de Pombal, do conde de
Samodães; O marquez de Pombal, por Teófilo Braga; Lisboa antiga,
de Júlio de Castilho; Historia de Portugal, de Schaeffer, Pinheiro
Chagas e Oliveira Martins; 0 marquez de Pombal, romance histórico,
de António de Campos Júnior; O marquez de Pombal, exame e historia
critica da sua administração, de D. Miguel de Soto‑Maior;
Encyclopedia do Porto, Diccionario Popular, dirigido por Pinheiro
Chagas, de que transcrevemos alguns períodos, etc.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume V,
págs. 838-847.
Terramoto de 1755
http://www.strawberryworld-lisbon.com/lisboa/essential/history.html
Algo terrível mudaria Lisboa para sempre - o terramoto de 1755. É
frequente ler na história de monumentos e igrejas que os mesmos
foram reconstruídos ou recuperados depois do terramoto de 1755.
Este foi o momento mais negro da história de Lisboa.
Na manhã de 1 de Novembro de 1755 sentiu-se o primeiro tremor e
apenas uns minutos depois sentiu-se o segundo, muito mais
violento, que reduziu metade da cidade a destroços. O terramoto
provocou um maremoto que varreu a cidade quase por completo.
Barcos, docas e edifícios foram destruídos pela fúria das águas e
milhares de pessoas foram arrastadas para nunca mais serem vistas.
Como se tudo isto não bastasse, um fogo terrível deflagrou pela
cidade, ardendo durante três dias seguidos e destruindo o pouco
que restava de Lisboa. Ao todo, perderam-se 60.000 vidas só em
Lisboa e outros tantos milhares morreram noutras áreas. O sismo
foi sentido por quase toda a Europa e no noroeste de África.
Mas a reconstrução de Lisboa tornou-se uma prioridade e ainda nem
tinham terminado os tremores, já o Marquês de Pombal estava a
delinear ideias para reconstruir a cidade. Ele começou dizendo
"Enterrem os mortos e alimentem os vivos" e, arregaçando as
mangas, lançou-se ao trabalho. Devido à sua determinação e sentido
prático, Lisboa ergueu-se rapidamente e melhor do que nunca. A
área situada entre a baixa de Lisboa e a Praça do Marquês de
Pombal, principalmente da Praça do Rosio à Praça do Comércio,
ainda hoje mostra o sistema inovador pensado por Sebastião José de
Carvalho e Melo - o próprio Marquês!
Apesar dos problemas, Sebastião de Melo levou a cabo um ambicioso
programa de reformas. Entre outras realizações, seu governo
procurou incrementar a produção nacional em relação à concorrência
estrangeira, desenvolver o comércio colonial e incentivar o
desenvolvimento das manufacturas. No âmbito dessa política, em
1756 foi criada a Companhia para a Agricultura das Vinhas do Alto
Douro, à qual o ministro concedeu isenção de impostos nas
exportações e no comércio com a colónia, estabelecendo assim a
primeira zona de produção vinícola demarcada no mundo,
colocando-se os célebres marcos pombalinos nas delimitações da
região. Em 1773, surgia a Companhia Geral das Reais Pescas do
Reino do Algarve, destinada a controlar a pesca no sul de
Portugal.
Ao mesmo tempo, o marquês criou estímulos fiscais para a
instalação de pequenas manufacturas voltadas para o mercado
interno português, do qual também faziam parte as colónias. Essa
política proteccionista englobava medidas que favoreciam a
importação de matérias-primas e encareciam os produtos importados
similares aos de fabricação portuguesa. Como resultado, surgiram
no reino centenas de pequenas manufacturas produtoras dos mais
diversos bens.
O ministro fundou também o Banco Real em 1751 e estabeleceu uma
nova estrutura para administrar a cobrança dos impostos,
centralizada pela Real Fazenda de Lisboa, sob seu controle directo.
Atentado contra D. José I
A 27 de Agosto de 1758, morre a rainha de Espanha e irmã de D.José
I, D.Maria Bárbara. Dias depois, a 3 de Setembro do mesmo ano, a
notícia chega a Portugal. Segundo consta, apesar do acontecimento,
D.José naquela noite saiu do Paço da Ajuda acompanhado pelo
Sargento-mor, Pedro Teixeira, em direcção à sege deste último,
para se encontrar com a amante. Mais tarde, por volta das 11
horas, quando voltavam para o palácio, Teixeira tentou abrir a
porta da Quinta de Baixo, que dava acesso às quintas, mas não
conseguiu fazê-lo, dado que alguém entupira a fechadura. Após sua
limpeza e a abertura da porta, seguiram pela Calçada do Galvão até
ao dobrar da esquina do norte das Casas da Quinta do Meio. Dessa
esquina, surgiram no escuro três homens a cavalo que dispararam
tiros sobre a carruagem, atingindo D.José no braço e na anca
direita. Encontrando-se o rei gravemente ferido, o sargento-mor e
o bolieiro Custódio da Costa, também atingidos pelos tiros,
resolveram dirigir-se ao Bairro da Junqueira à casa do
cirurgião-mor António Soares Brandão. Depois de receber os
curativos necessários, a seguir dirigiu-se ao palácio. No dia
seguinte, surgem diversos rumores acerca do sucedido. Houve quem
dissesse que o rei adoecera, quem defendesse que o rei tinha sido
alvejado por engano, sendo os tiros destinados a Pedro Teixeira,
que era bastante odiado na corte e ainda quem acusasse a família
Távora da tentativa de assassinato do rei, já que, por ser muito
devota, não consentiria a ofensa que a relação entre o D.José I e
a Marquesa constituía. Este acontecimento depressa foi encarado
como uma represália familiar dos Távoras contra o rei, pela
humilhação que este os fizera passar. Ao longo de três meses,
manteve-se, no Paço,um completo silêncio sobre o atentado. A
«Gazeta de Lisboa» ia anunciando as melhoras do Rei, mas não houve
reacções oficiais.
Uma análise jurídica sobre o "processo dos Távora" - por Francisco
Carlos Távora de Albuquerque Caixeta, advogado em Belém (PA)
No ano de 1758, o rei português D. José I foi vítima de um
atentado dentro de seu próprio país. A partir daí, sob a acusação
da prática dos crimes de Traição e Lesa-Majestade, procedeu-se uma
perseguição a membros de algumas das principais famílias da
nobreza de Portugal, especialmente o Duque de Aveiro e o Marquês
de Távora. Tal perseguição culminou num julgamento de cunho
político repleto de irregularidades jurídicas e numa execução
bárbara com requintes de crueldade que entrou para a história como
"O Processo dos Távora".
"O Processo dos Távora", igualmente cognominado de "O Caso dos
Távoras" é um episódio histórico muito famoso em Portugal, mas que
permanece até os presentes dias cercado de lacunas e pontos
obscuros tanto do ponto de vista fático quanto jurídico.
Como se trata de um acontecimento praticamente desconhecido no
Brasil e pelo fato de aqui serem residentes e domiciliados vários
descendentes das famílias envolvidas nessa tragédia, pareceu-me
oportuno escrever a respeito do tema.
A história remonta o ano de 1750, quando El-Rei Nosso Senhor de
Portugal, D. João V (tratamento conferido aos reis da época)
nomeou D. Francisco de Assis (o Marquês de Távora), para o cargo
de Vice-Rei da Índia. Assim, em março daquele ano o Marquês de
Távora partiu para a Índia com o intuito de representar a Coroa
Portuguesa naquele país, acompanhado de sua esposa D. Leonor
Tomásia de Távora [01] (a Marquesa de Távora) e seus filhos Luís
Bernardo (o Marquês-novo) e José Maria, deixando em Portugal suas
duas filhas casadas e a esposa de Luís Bernardo, Teresa de Távora
e Lorena (a Marquesa-nova).
Enquanto D. Francisco de Assis estava em Goa, na Índia, o rei D.
João V faleceu, assumindo o trono o até então príncipe D. José
(agora El-Rei D.José I).
Ao regressarem a Portugal, após quatro anos de bem sucedido
governo de D. Francisco de Assis na Índia, os Marqueses de Távora
foram informados por amigos e parentes que a esposa de Luís
Bernardo de Távora, D. Teresa de Távora [02] havia se tornado a
amante preferida do rei D. José I, e que esse relacionamento
amoroso adulterino já era de conhecimento público. Indignada com a
situação, D. Leonor passou a pleitear a anulação canônica do
casamento de seu filho Luís Bernardo e exigiu que o mesmo não mais
convivesse maritalmente com D. Teresa.
A posição radical adotada pela Marquesa de Távora em relação ao
casamento do filho mais velho, aborreceu extremamente o rei D.
José I, o qual mandou seu principal ministro Sebastião José de
Carvalho e Melo, tentar convencer os Marqueses de Távora de que D.
Teresa deveria retomar a vida conjugal normal com o marido Luís
Bernardo de Távora. Contudo, os Marqueses se mostraram
irredutíveis. Posteriormente, o próprio rei D. José I solicitou
pessoalmente a D. Francisco de Assis que fosse relevado o "suposto
affair" de D. Teresa com aquele regente em troca de favores e
títulos no governo, mas D. Francisco de Assis recusou a proposta
do rei, irritando-o mais profundamente ainda.
Pouco tempo depois, em 1º de novembro de 1755, dia de feriado
religioso católico português denominado "Dia de Todos os Santos",
a cidade de Lisboa (capital do Império Português) sofreu um
terrível terremoto que destruiu casas, igrejas, edifícios e
palácios, e que foi sentido inclusive em outras cidades do Reino.
Não se tratou de mais um dos tantos abalos sísmicos a que os
europeus estavam acostumados, mas sim o pior da história do velho
continente já registrado. Além do terremoto, Lisboa foi inundada
por um grande maremoto e depois ficou ardendo em chamas durante
seis dias.
Os membros do clero de Portugal encararam essa catástrofe natural
como uma revolta de Deus em relação aos amores adulterinos do rei
D. José I e de sua política de governo, da qual era figura
fundamental o ministro Carvalho e Melo. Um dos sacerdotes mais
exaltados foi o padre Gabriel Malagrida, o qual chegou a escrever
um manifesto intitulado "Juízo da Verdadeira Causa do Terremoto"
descrevendo o cataclismo como punição divina aos pecados dos
governantes do país e profetizando novos desastres se os culpados
continuassem a agir daquela forma; o que provocou a ira do rei e
do ministro Carvalho e Melo.
É imperioso mencionar que o rei D. José I não gostava de governar
e delegava a maioria de seus poderes, principalmente para o seu
ministro de confiança Sebastião José de Carvalho e Melo (o qual
futuramente foi nomeado Marquês de Pombal [03]). Desse modo,
determinados membros da nobreza começaram a se incomodar com o
fato de uma pessoa considerada de origem inferior a deles deter
cada vez mais poder prestígio e importância no Reino.
Foram nessas circunstâncias que se esboçou um movimento palaciano
contestatório, encabeçado pelo desembargador Costa Freire, com o
fulcro de derrubar o governo e substituí-lo por outro, a ser
constituído por alguns membros da nobreza portuguesa.
Posto isso, em 03 de setembro de 1758, deu-se o incidente que
mudou a história. Nessa noite, o rei D. José I saiu secretamente
para uma breve visita a sua amante predileta, D. Teresa de Távora.
Tanto era secreto esse encontro que alguns dias antes o rei havia
decretado luto oficial no país em virtude da morte de sua irmã
Maria Bárbara, ex-rainha da Espanha; fato esse que impedia as
saídas dos membros da Família Real do Paço que habitavam em Belém,
depois do terremoto em Lisboa. Desse modo, o rei não se serviu da
carruagem nem da escolta reais.
Ao retornar do encontro com a Marquesa-nova, o monarca tomou a
estrada de volta ao Paço, quando por volta das onze e meia da
noite, homens encapuzados abriram fogo de clavina e pistola sobre
a carruagem que transportava o soberano, ferindo-o no ombro e
braço direitos, bem como nas costas. Contudo, o cocheiro conseguiu
escapar levando o rei até a casa do Marquês de Angeja [04], na
Junqueira, onde permaneceu até o amanhecer, quando regressou ao
Paço numa carruagem real e escoltado por um corpo de Dragões.
Depois do ocorrido, o rei D. José I ordenou que o ministro
Carvalho e Melo procedesse a uma investigação sobre o atentado
[05] com o intuito de apenar os culpados. Sendo assim, o aludido
ministro se aproveitou da situação utilizando o atentado sofrido
pelo monarca como pretexto para deflagrar um processo de
perseguição aos maiores opositores deles (ou seja, pessoas
contrárias ao rei e ao ministro), culpando e incriminando setores
do clero e da nobreza pelos crimes de Traição e Lesa-Majestade.
As principais retaliações sofridas pelo clero foram à queda da
Companhia de Jesus, o encarceramento de figuras exponenciais do
alto e baixo clero e até mesmo a morte de alguns deles.
Por sua vez, no que tange à nobreza, foi criado expressamente para
julgar as pessoas as quais se atribuíam à culpa da tentativa de
regicídio um órgão denominado Tribunal da Inconfidência; porém os
juízes encarregados do caso jamais lograram provar
substancialmente uma inteira e líquida culpabilidade dos réus,
pois as provas eram tão fracas e inconsistentes que às vezes nada
mais eram do que deduções extraídas do que indivíduos teriam dito
ou ouvido pelas ruas, e as confissões obtidas de alguns réus
teriam sido conseguidas por intermédio de coação física.
É nesse contexto que deve ser analisada a confissão do Duque de
Aveiro, o qual sob tortura chegou a confessar muito mais do que
lhe fora perguntado, implicando na conjura todos aqueles que sabia
terem caído no desagrado do Rei e de seu todo-poderoso ministro.
Por conseguinte, asseverou que o desacato havia sido cometido por
instigação dos padres jesuítas, tendo como cúmplices os nobres
Marquês de Angeja, o Conde de Avintes, os Condes da Ribeira
Grande, Óbidos e São Lourenço, os Marqueses de Távora pai e filho,
José Maria de Távora e o Desembargador Costa Freire [06]. Todavia,
por ordem do ministro, o conteúdo dessa "confissão" não serviu
para incriminar a totalidade das pessoas nele envolvidas, mas
apenas as que lhe interessavam.
Ademais, a Marquesa Leonor de Távora nunca esteve presente no
Tribunal e sequer foi inquirida pelos juízes, pois nem se sabia
que ela estava entre os acusados. De fato, só quando o
desembargador Eusébio Tavares de Sequeira (o qual houvera sido
incumbido pelo próprio rei de proceder à defesa dos inculpados)
requereu a Carvalho e Melo os quesitos do processo e inculpação
para redigir tal defesa, é que o ministro lhe comunicou que ela
era um dos principais acusados.
Vale ressaltar a incrível celeridade com que ocorreram os
derradeiros atos da marcha processual, pois a defesa dos réus foi
entregue no dia 11 de janeiro de 1759 às quatro horas da tarde e
nesse mesmo dia a Junta conclui os autos e requereu ao rei
permissão para agravar as penas previstas em lei. No dia 12, foi
concluída a devassa, redigida a sentença, comunicada aos réus e
executada na manhã do dia 13.
Destarte, o julgamento em tela foi em tudo contrário às leis e a
justiça, mesmo porque consoante o escritor português Luiz
Lancastre e Távora [07] há registros de que a sentença já se
encontrava previamente lavrada antes mesmo do término do
julgamento. Tanto isso é verdade que nem os juízes cuidaram em
averiguar um único fato alegado pelos réus em sua defesa ou em
inquirir uma só testemunha por eles oferecidas.
Não obstante, passa-se, enfim, à parte das sentenças: ao Duque de
Aveiro e ao Marquês de Távora pai seria aplicada a pena de serem
rompidos em vida, quebrando-lhes os ossos das pernas, braços e
peito a golpes de maça, estando seus corpos atados às rodas, após
o que seria queimados, sendo as cinzas jogadas ao mar. D. Leonor
teria a cabeça decepada à espada pelo carrasco, o qual após expor
a cabeça ao povo deveria queimá-la juntamente com o restante do
corpo e lançar as cinzas ao mar. O Marquês Luís Bernardo, José
Maria Távora e o Conde de Atouguia seriam logo garrotados e só
depois quebrados os ossos das pernas e braços, antes de serem seus
corpos lançados na mesma fogueira que os predecessores. Pena igual
aplicar-se-ia aos criados Manuel Álvares e João Miguel, assim como
ao cabo Brás Romeiro. António Álvares e José Policarpo de Azevedo
seriam atados em postes altos e queimados em vida, tendo suas
cinzas o mesmo destino das dos outros réus. Além disso, todos
foram condenados a desnaturazilação de Portugal, exautoração das
honras e privilégios da nobreza a que tinham direito e total
confisco de bens.
Ademais, no tocante especificamente à família Távora, ficava de
futuro proibido o uso do sobrenome Távora; determinava-se que suas
armas fossem picadas e raspadas onde quer que se encontrassem; o
restante das mulheres deveriam ser separadas dos filhos (os quais
ficavam obrigados a professar) e encerradas em conventos; e suas
casas arrasadas e salgados os chãos onde se erguiam para eterna
lembrança desse castigo.
A execução da sentença ocorreu no sítio de Belém, no chamado Cais
Grande, onde se construiu especialmente para tal feito um alto e
grande patíbulo [08] todo em madeira sobre o qual se encontravam
os postes, as rodas, as aspas e todos os outros apetrechos
necessários a sua realização; e onde até hoje existe um
pelourinho.
À luz do exposto, percebe-se que todo o processo foi uma farsa,
levada a cabo para ocultar, sob uma aparência de legalidade, uma
das mais atrozes vinganças pessoais e uma política de governo
autocrática e absoluta, constituindo-se "O Processo dos Távora"
num ato meramente político e sendo o Tribunal da Inconfidência
tão-somente um instrumento da política pombalina.
Alfim, faz-se-mister ressaltar que após a morte do rei D. José I e
da saída do Marquês de Pombal do governo português, a nova rainha
D. Maria I ordenou que se procedesse a um inquérito sobre a
atuação do ex-ministro e consentiu na revisão do processo dos
Távora. Nesse sentido, os juízes que examinaram a petição de
revisão da sentença condenatória dos Marqueses de Távora, filhos e
genro, o Conde de Atouguia, consideraram -lhes inocentes face às
provas que haviam sido usadas para incriminá-los; reabilitando-se
a Memória da família Távora e devolvendo-se, na medida do
possível, os títulos e bens a que tinham direito.
Notas:
01 Leonor Tomásia de Távora e Francisco de Assis eram primos
legítimos entre si e tiveram o casamento arranjado desde cedo
pelos respectivos pais (como era de praxe na época). Ela era
herdeira da Casa dos Távoras e ele era filho do Conde de Alvor.
Desse matrimônio nasceram 13 filhos, dos quais 09 pereceram em
tenra idade, sobrevivendo só dois homens e duas mulheres, a saber:
Mariana Bernarda de Távora (primeiro rebento do casal), Luís
Bernardo de Távora (o primeiro filho homem do casal), José Maria
de Távora e Leonor de Lorena e Távora.
02 Teresa de Távora e Lorena (a Marquesa-nova) era filha do Conde
de Alvor (portanto, irmã de Francisco de Assis) e nasceu com
poucos dias de diferença de Luís Bernardo. Assim, em tom de
jocosidade, o Conde de Alvor dissera que deveria ficar desde logo
aprazado o casamento da tia com o sobrinho legítimo; o que para a
desgraça da família realmente viera a se concretizar em 1742.
03 O título de Marquês de Pombal foi instituído em benefício de
Sebastião José de Carvalho e Melo por decreto do rei D.José I em
16 de Setembro de 1769.
04 O qual era cunhado do rei D. José I.
05 Na realidade, nunca se descobriram as verdadeiras pessoas nem
motivações envolvidas por trás daquele incidente, existindo
diversas teorias a respeito. Pessoalmente, filio-me a corrente que
sustenta trata-se o atentado ao rei D. José I de uma simples
tentativa de assalto, muito comum àquela hora e local.
06 O qual já havia sido castigado há bastante tempo com o desterro
para Angola, na África.
07 D. Leonor de Távora. O Tempo da Ira. O Processo dos Távora,
3.ed., Lisboa: Quetzal, 2003. (Livro que serviu de base à redação
do presente artigo).
08 Concluída com êxito a execução da sentença, fora ateado fogo no
patíbulo, transformando-o em uma enorme fogueira e fazendo com que
a maior parte das cinzas dos mortos sujassem casas e telhados já
distantes, na Junqueira e Ajuda.
D. Jerónimo de Ataíde -11.º conde de Atouguia
N. a 14 de Julho de 1721; foi supliciado em 13 de Janeiro de 1759,
em Belém, por ser acusado de cumplicidade no crime dos Távoras
praticado em Setembro de 1758. Era filho de D. Luís Peregrino de
Ataíde, 10.º conde de Atouguia, e da condessa D. Clara de Assis
Mascarenhas, filha do conde de Óbidos.
Casou com D. Mariana Bernarda de Távora, filha dos marqueses de
Távora, e por esse motivo foi envolvido na conspiração contra D.
José, de que era acusada a família de sua mulher. Sendo preso
junto com os outros réus e levado para o pátio dos Bichos em
Belém, dali saiu unicamente para o patíbulo. Os seus bens foram
confiscados, a casa demolida e picado o brasão, o qual se compunha
de quatro bandas de prata em campo azul, tendo por timbre uma onça
azul bandada de prata, como que saltando.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume I, pág.
852.
Duque de Aveiro
Nasceu a 2 de Outubro de 1708, falleceu em Belém a 13 de Janeiro
de 1759, no patíbulo, por ser sentenciado como um dos principais
influentes no crime de conspiração contra a vida de el-rei D.
José, em 3 de Setembro de 1758. Era filho segundo do 3.º conde de
Gouveia e 6.º conde de Santa Cruz, D. Martinho de Mascarenhas; e
de sua mulher, D. Inácia Rosa de Távora, filha de António Luís de
Távora, 2.º marquês deste título.
D. José, sendo destinado por seu pai para a vida eclesiástica, foi
porcionista do colégio de S. Pedro da Universidade de Coimbra. Seu
irmão mais velho foi o 4.º marquês de Gouveia e 7.º visconde de
Santa Cruz; apesar de ser casado, apaixonou-se por uma senhora,
também casada, e fugiu com ela. Como este crime era gravíssimo e
punido com as mais. severas penas, D. João viu-se impossibilitado
de voltar ao reino, e renunciou a sua casa e títulos em favor de
seu irmão D. José, ficando este fidalgo com uma posição na corte
bem diferente da que tencionava. Era senhor das vilas, morgados e
comendas da casa de Gouveia, mordomo-mor da casa de D. João V, que
o fez presidente do Desembargo do Paço, cuja posse tomou a 30 de
Agosto de 1749. No ano de 1739 casou com D. Leonor de Távora,
filha do 2.º conde de Alvor, e irmã do 3.º marquês de Távora, D.
Francisco de Assis. Falecendo no estado de solteiro o 7.º duque de
Aveiro, D. Gabriel de Lencastre Ponce de Leon, levantou ‑se grande
demanda acerca da sucessão entre um sobrinho deste fidalgo, D.
António de Lencastre Ponce de Leon, e D. José de Mascarenhas, que
se apresentava com direito à casa e ducado de Aveiro, como
legítimo sucessor, por ser descendente do 3.º duque daquele
título, cuja filha D. Maria de Lencastre. casara com o 1.º marquês
de Gouveia. 0 primeiro ‑ministro de D. João V, Frei Gaspar da
Encarnação favoreceu muito a pretensão de D. José Mascarenhas, de
quem era tio, e conseguiu em 1749 uma sentença a seu favor, a qual
foi confirmada três anos depois pela Relação de Lisboa; D. José
tomou então posse da casa e ducado de Aveiro, de que foi o 8.º e
último duque. Tornando-se excessivamente orgulhoso a altivo,
projectou casar seu filho D. Martinho Mascarenhas, marquês de
Gouveia, com a filha mais velha do duque de Cadaval, imaginando a
possibilidade de reunir no seu herdeiro essas duas nobilíssimas
casas, pretendendo ao mesmo tempo que lhe fossem dadas as
importantes comendas que, sem fazerem parte da casa de Aveiro,
tinham sido administradas pelos duques seus antecessores.
As dificuldades que encontrou na realização desse enlace e que
atribuiu à má vontade de el-rei D. José, e o indeferimento que
teve a segunda pretensão, junto ao ódio que os nobres e grandes do
reino consagravam a Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde
conde de Oeiras e marquês de Pombal, fizeram com que o orgulhoso
fidalgo planeasse um atentado contra a vida de D. José, para desse
modo aniquilar a influência e poder do austero ministro. Decidido
a pôr em prática o seu plano, buscou auxiliares em dois criados
seus, que eram irmãos, um seu cunhado, José Policarpo de Azevedo,
alguns populares, falando vagamente do seu projecto a algumas
pessoas da nobreza. Daqui resultou o crime bem conhecido na
história pela conspiração dos Távoras, de 3 de Setembro de 1758,
cuja tentativa ficou frustrada, resultando ainda uns leves
ferimentos em el-rei. Sendo presos os que se indicavam como
criminosos, seguiu o processo sumariamente, lavrando-se a sentença
condenatória a 12 de Janeiro de 1759, realizando-se a execução
logo no dia seguinte. Os títulos de duque de Aveiro e marquês de
Távora ficaram extintos para sempre. A sentença ordenava a
confiscação de todos os bens, que as armas fossem derribadas e
picadas em todos os lugares onde estivessem colocadas, e as casas
de residência demolidas a arrasadas de sorte que delas não
restassem vestígios, sendo reduzidas a campo e salgado. 0 palácio
que o duque de Aveiro possuía em Belém foi completamente arrasado,
e nele se erigiu uma memória para perpetuar o crime e o castigo
dele. É uma coluna cilíndrica, de cinco metros de altura,
terminada por uma chama em forma de pira, cercada de cinco anéis,
também de pedra representando os cinco membros da família de
Aveiro, que entraram na conjuração. Na base da coluna lê-se o
seguinte:
AQUI FORAM ARRASADAS E SALGADAS
AS CASAS DE JOSÉ MASCARENHAS,
EXAUTORADO DAS HONRAS DE DUQUE DE AVEIRO
E OUTRAS
CONDEMNADO POR SENTENÇA PROFERIDA
NA SUPREMA JUNCTA DE
INCONFIDENCIA EM 12 DE JANEIRO
DE 1759
JUSTIÇADO COMO UM DOS CHEFES
DO BARBARO E EXECRANDO DESACATO
QUE NA NOITE DE 3 DE SEPTEMBRO
DE 1758 SE HAVIA COMMETTIDO
CONTRA A REAL E SAGRADA PESSOA DE
D. JOSÉ I.
NESTE TERRENO INFAME SE NÃO PODERÁ
EDIFICAR EM TEMPO ALGUM.
Este terreno salgado ficou pertencendo à câmara de Belém; esteve
deserto e abandonado até ao reinado de D. Maria I, em que a câmara
foi dando licenças para diversas a pequenas edificações. A coluna
existe actualmente num beco ficando oculta por uns casebres. A
parte da sentença, que ordenava que se picasse o brasão de Aveiro,
em todos os locais que se encontrasse, não foi cumprida
completamente porque, segundo se diz, ainda hoje se vêem alguns
intactos na cidade. de Aveiro a na parede exterior do edifício do
colégio de Santo Tomás, em Coimbra, que faz frente para a rua da
Sofia. A duquesa de Aveiro, logo em seguida à prisão de seu
marido, foi levada para o convento do Rato, onde faleceu em 1761
na mais extrema miséria, porque tendo-lhe sido confiscados os bens
e não ousando ninguém socorre-la com receio de incorrerem na
cólera do soberano ou do seu omnipotente ministro, a ilustre
fidalga viu-se obrigada a servir as freiras a troco da mais
humilhante retribuição, para não andar descalça e nua.
D. Martinho de Mascarenhas, filho do duque, foi também
encarcerado, e só em 1777, por morte de el-rei D. José, é que saiu
das prisões da Junqueira. Vendo-se só a sem família, passou algum
tempo com os frades de Mafra, obtendo depois por intervenção do
marquês de Alorna o posto de capitão num regimento. Foi o 6.º
marquês de Gouveia, título que também ficou extinto. D. João VI,
sendo ainda príncipe regente, concedeu-lhe por fim uma mesada de
100$000 réis, do seu bolsinho particular, a assim viveu até 1804,
ano em que faleceu, ficando por sua morte extinta uma das mais
ilustres casas de Portugal.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume I,
págs. 871-872.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal
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