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D. João IV
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Em Janeiro de 1641, reuniram-se as cortes em Lisboa para confirmar a
proclamação de D. João IV. Nelas foram também
aprovadas todas as convenientes medidas de
segurança e defesa do Reino, pois já se contava com a guerra com a Espanha ia
declarar a Portugal. Foram, em seguida, enviados embaixadores a várias nações,
com as quais se realizavam tratados de aliança e que começaram a reconhecer a
nossa independência.

Aclamação de D. João IV |
Primeiro, mandaram-se enviados à Catalunha, que redobrou de
esforços na luta sustentada contra os espanhóis e impediu
numerosas forças de marcharem sobre Portugal. Depois,
despacharam-se embaixadores para França, Holanda, Inglaterra e
outros países.
A França aceita auxiliar-nos por terra e por mar, embora nunca
tenha cumprido a promessa.
A Holanda promete socorro naval, permite o recrutamento de
soldados e oficiais, prontifica-se a mandar-nos alimentos e
munições.
A Suécia envia-nos oito navios de guerra e muito material bélico.
A Inglaterra fornece-nos armas e dá licença para alistarmos
soldados e oficiais ingleses.
Na Dinamarca, os nossos embaixadores são recebidos, com todas as
atenções, mas não se assina qualquer tratado, em virtude do
respectivo monarca estar, nesse momento, a negociar a paz, como
medianeiro entre os Estados protestantes e o imperador da
Alemanha.
Quanto à Santa Sé, junto da qual a Espanha dispunha de grande
influência, a questão foi difícil e morosa. O nosso primeiro
embaixador, D. Miguel de Portugal, bispo de Lamego, viu-se atacado
nas ruas de Roma pelos emissários de Filipe IV (de Espanha), não
foi recebido pelo papa e teve que regressar a Portugal.
Seguiram-se novas negociações, que se protelaram por mais de vinte
anos, até que se veio a conseguir a aplanação de todas as
dificuldades.
Na França, na Inglaterra, na Holanda e na Itália, trabalhou, como
agente secreto de D. João IV, o padre António Vieira que trouxera
a Portugal a adesão do Brasil à revolução de 1640 e se tornara um
dos mais fiéis servidores do monarca e do Reino.
Entretanto, por influência da duquesa de Mântua, ou por alguns
fidalgos se julgarem com mais direitos à Coroa do que o duque de
Bragança, tentou-se uma conspiração contra a vida de D. João IV.
Em 1647, no dia do Corpo de Deus, houve uma conspiração contra o
rei. Domingos Leite tinha-se incumbido de matar nesse dia o rei.
Mas, descobertos os seus propósitos, foi imediatamente executado.
Durante este reinado voltaram ao domínio português, grande parte
das possessões que havíamos perdido. Em Marrocos, retomámos Tânger;
Salvador Correis de Sá e Benevides, reconquistou Angola e São Tomé
aos holandeses; no Brasil, também voltaram à nossa posse
Pernambuco, Bahia e Maranhão. Porém, Ceuta, Malaca e Ceilão
perderam-se para sempre.
Os restos mortais de D. João IV encontram-se na Igreja de São
Vicente de Fora.
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Rainha D. Luísa de Gusmão
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D. João IV
Vigésimo primeiro rei de Portugal, fundador da dinastia de Bragança, também
conhecida por Brigantina, era filho de D. Teodoro ll, sétimo Duque de Bragança e
de sua mulher, a Duquesa D. Ana de Velasco. Nasceu em Vila Viçosa em 1604. A sua
juventude decorreu tranquilamente no seu magnífico domínio em Vila Viçosa
(Alentejo, votada quase inteiramente aos prazeres da música e da caça. Chamado
ao trono português pela Revolução de 1640, o novo rei organizou, sem perder
tempo, da organização da defesa de Portugal. Depois teve de castigar uma
conspiração, formada por vários fidalgos portugueses que tinham a intenção de o
assassinar, e, em seguida voltar a entregar Portugal aos espanhóis. O Marquês de
Vila Real, o Duque de Caminha, ( "Marinha Grande - Penedo da Saudade (**), em o
Conde de Armamar e D. Agostinho Manuel, que eram com o arcebispo de Braga, os
principais, expiaram o seu crime (lesa-majestade), no cadafalso e o arcebispo
acabou os seus dias num cárcere. Durante o reinado de D. João lV, a guerra com a
Espanha arrastou-se numa série de pequenos combates e escaramuças, com uma única
excepção: a Batalha do Montijo (*) que foi para os portugueses uma brilhante
vitória.
No Brasil, a luta contra os holandeses, começada em 1642, terminava em 1654 com
a expulsão destes. Em África, um luso-brasileiro de nome Salvador Correia de Sá,
depois de libertar o Rio de Janeiro, rumou para Angola e S. Tomé e Príncipe e
também de lá expulsou os holandeses.
As características de D. João lV era o bom senso, a prudência e o tacto
governativo; o seu principal defeito era ser egoísta. Jaz em S. Vicente de Fora
(Lisboa).
(*) Batalha de Montijo (Badajoz – Espanha). Célebre vitória dos portugueses,
comandados por Matias de Albuquerque sobre os espanhóis, capitaneados pelo barão
de Mollingen, em 26 de Maio de 1644.
(**)A Lenda do Penedo da Saudade - Carlos Leite Ribeiro
Recordamos que "Penedo da Saudade" existem dois: um romântico situado em
Coimbra, voltado para o vale do Calhabé, e o outro em S. Pedro de Moel. É deste
que vamos contar a Lenda.
Contrariamente ao que possam imaginar, não vamos falar da Rainha Santa Isabel,
da sua mantilha, nem das lágrimas de esposa traída pelo seu rei e senhor D.
Dinis o "Lavrador", que gozava de fama (e talvez proveito) de ser uma grande
sedutor.
O drama de que vamos falar (lenda), respeita aos Duques de Caminha: D. Miguel
Luís Meneses e de sua esposa D. Juliana.
Este feliz casal vivia uma vida muito recatada no seu palácio, afastado do
bulício e das intrigas da Corte e da política bem efervescente naquele ano de
1941.
Mas ...
Cert dia foram surpreendidos por um dos seus criados que anunciou a chegada do
senhor Marquês de Vila Real, pai de D. Miguel de Meneses.
D. Juliana teve logo o presságio de que algo de grave se tratava, dado que se
levantou empalecida. Em vão seu esposo, D. Miguel, tentava acalmar sua
amantíssima esposa. Entretanto, mandou entrar seu pai.
Não obstante o desejo do Marquês falar a sós com seu filho, este insistiu para
que a esposa ficasse presente.
"Seja !" - concordou por fim o Marquês de Vila Real. O seu aspecto era grave o
que deixou o casal ainda mais inquieto. D. Miguel quis saber da visita de seu
pai: "O que se passa, senhor meu pai ?...
Este encarou bem de frente o filho e retorquiu-lhe: "Senhor Duque de Caminha e
meu filho, chegou a hora de el-rei D. João lV pagar a sua tirania ! A
conspiração está organizada e, dela fazem parte o arcebispo-primaz, o Conde de
Armamar, D.Agostinho de Vasconcelos, eu e vós !".
Muito surpreendido, D. Miguel que não havia sido anteriormente consultado,
tentou não fazer parte da conjura: "Não meu pai !".
O velho fidalgo quase que fusilou o filho com o olhar: "E se vos der uma ordem
?... não deveis trair-nos !". D. Juliana assistia atónica e horrorizada ao
diálogo trágico travado entre seu sogro e o seu marido.
Cabisbaixo e bastante consternado, D. Miguel, não tendo outra alternativa,
decidiu ser um dos conjurados.
D. Juliana, perante a louca decisão de seu amado esposo, caiu desmaiada num
canapé, onde, momentos antes partilhava as carícias do esposo que tanto amava.
Gorada a conjura, feitos prisioneiros todos os conjurados, entre os quais estava
o Duque de Caminha, foram encarcerados na fortaleza de S. Vicente de Belém
(Torre de Belém - Lisboa).
Aí, no silêncio da noite, estendido nas palhas putrefactas do cárcere, D. Miguel
tomou noção da sua fraqueza em ter acedido às ordens de seu pai ! Tomou então a
decisão de escrever a el-rei pedindo-lhe perdão - mas em vão. D. Juliana também
implorou a el-rei o perdão para o marido - mas também sem o conseguir.
D. Miguel de Meneses subiu ao cadafalso e com a morte pagou a fidelidade que o
ligava a seu pai.
Inocente ?... Culpado ?... a decisão fora sua !
Para o povo, ele estaria inocente e pagou pelo crime do pai.
Refugiada em S. Pedro de Moel, a Duquesa de Caminha, ia todos os dias chorar as
suas desgraças num penedo solitário. Os soluços que se soltavam de seu peito e
as suas lágrimas, misturavam-se com as ondas do mar e foram-se espalhando, qual
balada trágica, por esse mundo fora.
Perante tamanha dor, o povo de S. Pedro de Moel, passou a chamar àquele rochedo,
o Penedo da Saudade.
E assim fez-se lenda ...
D. João IV
Filho de D. Teodósio, duque de Bragança e de D. Ana Velasco, casou
em 1633 com D. Luísa de Gusmão, espanhola da casa de Medina
Sidónia.
Já em 1638, os conjurados da Revolução de 1640 tinham procurado
obter a aceitação de D. João para uma revolta contra Espanha. Mas
as hesitações, ou cautelas, do duque fizeram levantar a hipótese
de se conseguir o regresso do infante D. Duarte, solução que
falhou, tendo-se mesmo encarado a instauração de uma república,
nos moldes da das Províncias Unidas.
A verdade é, que depois da sua aclamação como rei a 15 de Dezembro
de 1640, todas as hesitações desapareceram e D. João IV fez frente
às dificuldades com um vigor que muito contribuiu para a efectiva
restauração da independência de Portugal. Da actividade global do
seu reinado, deveremos destacar o esforço efectuado na
reorganização do aparelho militar - reparação das fortalezas das
linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições,
defesa do Alentejo e Beira e obtenção de material e reforços no
estrangeiro; a intensa e inteligente actividade diplomática junto
das cortes da Europa, no sentido de obter apoio militar e
financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas e conseguir o
reconhecimento da Restauração; a acção desenvolvida para a
reconquista do império ultramarino, no Brasil e em Africa; a alta
visão na escolha dos colaboradores; enfim, o trabalho feito no
campo administrativo e legislativo, procurando impor a presença da
dinastia nova.
Quando morreu, o reino não estava ainda em segurança absoluta, mas
D. João IV tinha-lhe construído umas bases suficientemente sólidas
para vencer a crise. Sucedeu-lhe D. Afonso VI, seu segundo filho.
Ficha genealógica:
D. João IV nasceu em Vila Viçosa, a 19 de Março de 1604 e morreu
em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1656, tendo sido sepultado no
Mosteiro de S. Vicente de Fora. Era filho de D. Teodósio II, 7 °
duque de Bragança, e de sua mulher, D. Ana de Velasco. Do seu
casamento, celebrado em 12 de Janeiro de 1633, com D. Luísa
Francisca de Gusmão, que nasceu em San Lucar de Barrameda, a 13 de
Outubro de 1613, e morreu em Lisboa a 27 de Outubro de 1666, filha
do 8 ° duque de Medina-Sidónia, D. Juan Manuel Pérez de Guzman, e
da duquesa D. Joana de Sandoval, nasceram:
1. D. Teodósio, que nasceu em Vila Viçosa a 8 de Fevereiro de
1634 e morreu em Lisboa, a 13 de Maio de 1653. Foi 9 ° duque de
Bragança e príncipe do Brasil, em 1645;
2. D. Ana, que nasceu em Vila Viçosa, a 21 de Janeiro de 1635 e
morreu no mesmo dia; estando enterrada no Convento das Chagas
daquela vila;
3. D. Joana, que nasceu em Vila Viçosa a 18 de Setembro de 1635 e
morreu em Lisboa, a 17 de Novembro de 1653; sepultada no Mosteiro
dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro de S.
Vicente de Fora;
4. D. Catarina, que nasceu em Vila Viçosa, a 25 de Novembro de
1638 e morreu em Lisboa, a 31 de Dezembro de 1705. Foi sepultada
no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro
de S. Vicente de Fora. Foi rainha de Inglaterra pelo seu
casamento, em 1661, com o Carlos II, rei de Inglaterra, que morreu
em 16 de Fevereiro de 1685;
5. D. Manuel, que nasceu em Vila Viçosa, a 6 de Setembro de 1640 e
faleceu no mesmo dia, tendo sido sepultado no Convento de S.
Francisco daquela vila;
6. D. Afonso VI, que herdou a coroa;
7. D. Pedro II, que sucedeu ao precedente;
Teve D. João IV uma filha ilegítima, de mãe desconhecida:
8. D. Maria, que nasceu em Lisboa, a 30 de Abril de 1644, e morreu
em Carnide, a 7 de Fevereiro de 1693, no Convento de S. João dos
Carmelitas Descalços. Foi reconhecida pelo progenitor, o qual lhe
fez mercê das vilas de Torres Vedras e Colares e dos lugares de
Azinhaga e Cartaxo, tendo-se dado à vida religiosa.
Fontes:
Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa,
Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume V: A
Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750),
Lisboa, Verbo, 1980
Guerra da Restauração
A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que Portugal
podia despender e absorveu enormes somas de dinheiro. Pior do que
isso, impediu o governo de conceder ajuda às frequentemente
atacadas possessões ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, pelo
menos na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou pelo menos a
Metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas.
Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas forças eram
escassas – sobretudo na fronteira terrestre –, as suas coudelarias
haviam sido extintas, os seus melhores generais lutavam pela
Espanha algures na Europa. Do lado português, tudo isto explica
por que motivo a guerra se limitou em geral a operações
fronteiriças de pouca envergadura. Do lado espanhol, é preciso
lembrar que a Guerra dos Trinta Anos (prolongada em Espanha até
1659) e a questão da Catalunha (até 1652) demoraram quaisquer
ofensivas de vulto. Regra geral, a guerra, que se prolongou por 28
anos, teve os seus altos e baixos para os dois contendores até ser
assinado o Tratado de Lisboa, em 13 de Fevereiro de 1668, entre
Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que este último
reconhece a independência do nosso País.
Salvador Correia de Sá e Benevides
Restaurador de Angola, conhecido também pelo nome de Salvador
Correia de Sá e Benevides. Descendia da gloriosa família de Mem de
Sá e de Estácio de Sá, os fundadores do Rio de Janeiro.
N. nesta cidade em 1591; fal. em Lisboa em 1 de Janeiro de 1688.
Era filho de Martim de Sá e de sua mulher D. Maria de Mendoza y
Benavides.
Em 1612, contando 18 anos, entrou no serviço militar,
distinguindo-se nas guerras contra os índios. Pouco tempo depois
começaram os holandeses a infestar as costas do Brasil,
assenhoreavam-se daquela grande região, e Salvador Correia, que já
então tinha perto de 30 anos, mostrou o que valia não só a sua
bravura, como a sua perícia militar, começando por levar a
salvamento de Pernambuco para Lisboa um comboio de 30 navios. Ao
voltar desta expedição, que era arriscada porque a marinha
holandesa dominava os mares, Salvador Correia alistou na capitania
de S. Vicente uns 200 homens, meteu-os a bordo de duas caravelas e
de três canoas de guerra, a conduziu-os à empresa da restauração
da Baía, empresa importante para a qual no ano de 1624 saíra de
Lisboa uma esquadra hispano‑portuguesa, bastante numerosa. De
caminho para a Baía, desembarcou Salvador Correia na capitania do
Espírito Santo, e demorando-se ali algum tempo, teve ensejo para
surpreender um troço de holandeses, que também haviam saltado em
terra, e que foram pelo jovem herói completamente derrotados.
Seguindo para a Baía, distinguiu-se muito na conquista dessa
praça, em 1 de Maio de 1625, tendo chegado poucos dias antes ao
campo dos sitiadores.
Em 1634, Salvador Correia, que granjeara grande reputação, foi
nomeado almirante dos mares do sul. Tratava-se para os espanhóis
de resolver uma questão vital para o seu domínios nas margens do
rio da Prata. Ardia ali há muitos anos a rebelião que devastava
principalmente a província de Tucuman, rebelião conhecida pelo
nome de revolta dos Caléquis e dirigida por um hábil chefe, D.
Pedro Chamay. Salvador Correia dirigiu a campanha com tanta
habilidade e energia, que, tendo ganho a batalha de Pelingarta,
havendo aprisionado D. Pedro Chamay, e tendo também recebido um
grande numero de frechadas, porque a luta foi áspera e rude e
Salvador Correia não se poupou, conseguiu restabelecer
completamente a ordem nas margens dos rios da Prata a do Paraguai.
Foi então nomeado capitão-general do Rio de Janeiro, dando a carta
régia, que o nomeava, testemunho dos altos serviços prestados pelo
agraciado à coroa de Espanha. Foi por essa ocasião também que
Salvador Correia, filho de espanhola, foi procurar esposa à
fidalguia dessa nação, casando com D. Catarina de Velasco. filha
de D. Pedro Ramirez de Velasco, governador do Chile.
Apesar destas relações tão íntimas de parentesco que o ligavam à
Espanha, apesar de ter militado e comandado em terreno
exclusivamente espanhol, e de não ter razão de queixa pessoal do
governo de Espanha, nem por isso Salvador Correia deixava de ser
essencialmente patriota e de sentir pulsar no peito um coração
português. Apenas chegou ao Rio de Janeiro a notícia da revolução
de 1 de Dezembro de 1640, logo sem a mínima hesitação se proclamou
nessa cidade a realeza de D. João IV. Salvador Correia lutava com
dificuldades muito graves, porque os jesuítas queriam executar as
leis a as bulas que lhes concediam a liberdade dos índios, e os
paulistas, que tinham índios como escravos, recusavam-se a
libertá-los, chegando a revoltar-se abertamente contra os
jesuítas, que Salvador Correia defendia e sustentava com toda a
energia, porque na verdade eles defendiam nesse momento a causa da
civilização e da humanidade. Salvador Correia esperava que o
grande sucesso da restauração de Portugal abrandasse os ânimos dos
paulistas, ou pelo menos os decidissem a mandar representantes ao
Rio de Janeiro com poderes bastantes para resolverem as questões
que promoviam conflito, mas os paulistas entenderam, pelo
contrario, que a fidelidade de que tinham dado provas e o modo
como tinham acolhido a aclamação de D. João IV, os tornava
credores da gratidão do rei de Portugal, e portanto as suas
pretensões deviam ser atendidas pelo capitão-mor do Rio de
Janeiro. Negaram-se então a consentir em quaisquer medidas que
tivessem por fim a libertação dos índios. Vendo que era
indispensável ir tratar directamente com os revoltosos, Salvador
Correia partiu para Santos, onde depois de largas negociações
conseguiu que os paulistas elegessem 48 procuradores para tratarem
do assunto, chegando enfim a um resultado, que se não resolveu
inteiramente a questão, pelo menos apaziguou a capitania. O novo
governo de Lisboa depositava nele plena confiança, e nomeou-o
sucessivamente em 1644 general da frota que devia escoltar os
navios do comércio brasileiro ameaçados nos mares da América pelos
holandeses, nos da Europa pelos espanhóis, delegado do conselho
ultramarino, e dando-lhe finalmente amplos poderes para explorar
as minas, cuja existência e riqueza no vasto território que estava
sob a jurisdição de Salvador Correia já então se pressentiam. Bem
convinha o seu descobrimento ao governo de D. João I V, que fez a
Salvador Correia as mais brilhantes promessas, no caso de
conseguir explorá-las com felicidade; porém este, com todo o
desinteresse, delegou em outros a viagem das minas e o exercício
do lugar para que fora escolhido, e aceitou a comissão mais
gloriosa, menos rendosa, e mais perigosa, a de comboiar os navios
mercantes que iam do Rio de Janeiro para a Europa. Fez três
viagens: escoltando na primeira 37 velas. Nessa primeira viagem
prestou um alto serviço à insurreição pernambucana, porque
escoltou até ao porto de Tamadaré 8 navios da Baía que levavam a
João Fernandes Vieira, que acabava de ganhar a batalha de Tabocas,
um reforço de 800 homens ainda mais precioso por serem os chefes
dos terços André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, cujas
heróicas espadas não haviam de contribuir pouco para a expulsão
definitiva dos holandeses de Pernambuco. Mais duas viagens fez
ainda Salvador Correia até que em 1648 D. João IV o encarregou dum
emprego de alta importância, porque se tratava de arrancar Angola
ao poder dos holandeses.
A importância de Angola era extrema, porque era dali que se
fornecia o Brasil de escravos pretos indispensáveis para a cultura
das suas terras. A empresa de a reconquistar era tanto mais
difícil, quanto pela situação extravagante em que nos achávamos
com os holandeses, nossos aliados na Europa, era indispensável que
Salvador Correia encontrasse meio de tomar Angola, sem que
parecesse que fora ele que tomara a ofensiva, para se não
considerarem rotas as pazes com a Holanda. Salvador Correia chegou
ao Rio de Janeiro, e apelando para o patriotismo e até para os
interesses próprios dos homens abastados, interesse que a perda
desse reino prejudicava altamente, despendendo também com
liberalidade os seus próprios dinheiros, conseguiu juntar 15
navios, 4 dos quais foram comprados à sua custa, e levando neles
900 homens de desembarque, partiu no dia 12 de Maio para Angola.
Nunca empresa tão importante fora intentada com tão pequenas
forças. O fim aparente da expedição era edificar um forte na
enseada de Quicombo, afim de estabelecer comunicações com os
portugueses, que desde a perda de Angola se tinham refugiado em
Massangano. Chegou a Quicombo, mas, tomando pretexto de
hostilidades que os holandeses faziam aos restos da antiga
guarnição portuguesa declarou que era isto uma quebra flagrante da
paz, que o autorizava a pedir-lhes uma satisfação. Dirigiu-se para
Luanda, tendo já perdido um navio por causa dum rombo no porão, e
apenas chegou à capital da província, participou aos holandeses os
motivos da sua vinda, as suas razões de queixa, declarando-lhes
que, logo que eles não respeitavam a paz estabelecida, também ele
se não julgava obrigado a deixar de a infringir, e portanto que
exigia que eles se entregassem. Surpreendidos os holandeses com
esta audácia, avaliaram em maior do que era o poder dos
assaltantes, e pediram 8 dias para tomarem uma decisão. O fim
evidente era reunirem as tropas que andavam pelo campo, e Salvador
Correia, percebendo-o, apenas lhes concedeu dois dias. No fim do
prazo marcado. desembarcou em chalupas 650 soldados e 250
marinheiros, deixando 180 nos navios com muitas figuras pelas
enxárcias e pelas amuradas, para que de longe se julgasse muito
mais numerosa a tripulação dos navios. Os holandeses, repelidos de
todos os pontos exteriores, refugiaram-se na fortaleza do Morro de
S. Miguel e no forte de Nossa Senhora da Guia, tendo abandonado
tanto à pressa o fortim de Santo António, que nem tiveram tempo de
encravar mais do que duas peças das oito que o fortim possuía.
Aproveitou-as Salvador Correia, e juntando-as, a quatro meios
canhões que mandou desembarcar, formou uma bateria que principiou
a bombardear a fortaleza, causando pouco dano, mas produzindo
grande terror aos holandeses, assombrados da rapidez com que a
bateria se assentara. Viu, porém, Salvador Correia que seria
demorado o êxito da bateria, a apertado pela necessidade de
impedir que os holandeses fossem reforçados, mandou no dia
seguinte, 15 de Agosto de 1648, dar assalto às duas fortalezas
ocupadas pelo inimigo. A temeridade era incrível e seria
indesculpável, se não fosse a situação perigosa em que Salvador
Correia se via. Tinha apenas 900 homens e ia assaltar duas
fortalezas, onde a artilharia quase nem tinha aberto brecha e
guarnecidas por 1.200 soldados europeus e outros tantos negros.
Por isso o assalto deu resultados terríveis. Depois duma escalada
audaciosa em que os assaltantes foram repelidos, Salvador Correia
mandou recolher as forças, e viu que perdera 163 soldados mortos e
160 feridos. Tinha por conseguinte fora do combate mais da terça
parte do seu exército. Salvador Correia, sombrio mas resoluto, ia
fazer uma segunda tentativa, quando com grande surpresa, viu
aparecer um parlamentário, que vinha propor uma capitulação, o que
Salvador Correia resolveu aceitar, receando o resultado de um novo
assalto, em vista das perdas enormes que já sofrera. A capitulação
foi concedida com todas as honras, facilitando-lhes logo a
amnistia que eles pediram para os seus partidários, e assinada a
capitulação viu-se o caso estranho de saírem rendidos de duas
fortalezas, onde nem quase havia brecha, 1.100 homens e passarem,
diante de menos de 600, que a essa força estava reduzida, depois
do primeiro assalto, o exército sitiador. Havia já 5 dias que
Salvador Correia tomara posse das fortalezas, quando apareceu na
cidade, vindo do sertão um corpo de 250 homens acompanhados por
mais de 2.000 negros, súbditos da rainha Ginga (V. Portugal, vol.
III, pág. 737). Bem desejariam eles romper a capitulação, mas
Salvador Correia tomara as suas precauções, fazendo logo embarcar
em três navios a guarnição holandesa da cidade; de sorte que os
recém chegados, vendo-se sós, capitularam também. Os negros da
rainha Ginga é que não quiseram sujeitar-se, e arrojaram os
maiores impropérios aos holandeses, por eles os desampararem. A
guarnição de Benguela rendeu se a dois navios portugueses sem
disparar um tiro, e a da ilha do S. Tomé, apenas soube que Luanda
se rendera, partiu desamparando a ilha, deixando a artilharia e
munições, de forma que os navios que Salvador Correia enviara para
procurarem apoderar-se dessa nossa antiga e importante colónia,
encontraram já a bandeira portuguesa arvorada nos fortes. Assim
desampararam os holandeses também as suas feitorias de
Benguela-a-Velha, de Leango e da Pinda, de forma que em dois meses
tinham voltado ao domínio português. Angola e S. Tomé. A vitória
quase miraculosa de Salvador Correia deixou de si lembrança tão
viva na memória dos povos, que ainda em 1812 se celebrava em
Luanda uma festa em acção de graças no dia 15 de Agosto pela
vitória alcançada nesse dia por Salvador Correia. Expulsos os
holandeses, tinha ainda de subjugar e punir os negros que haviam
seguido o seu partido. Os principais eram os súbditos da rainha
Ginga, e Salvador Correia, dispondo de poucas forças, alistou ao
seu exército muitos franceses, que faziam parte da guarnição
holandesa e que tinham ficado em Angola. O comando foi confiado a
Bartolomeu de Vasconcelos, que facilmente subjugou os negros
dissidentes, vendo-se a rainha Ginga forçada a pedir a paz, por se
convencer que nada podia contra os portugueses. No entretanto
Salvador Correia dava grande impulso às suas medidas
administrativas, favorecendo o desenvolvimento de Luanda, onde se
demorou até 1651, ano em que tornou a partir para o Rio de
Janeiro, deixando por seu sucessor Rodrigo de Miranda Henriques.
Por carta régia de 17 de Setembro de 1658, muito honrosa para o
agraciado, fora-lhe conferido o governo das capitanias do sul do
Brasil com absoluta independência do governo da Baía. Quando
chegou ao Rio de Janeiro, achou a cidade em deplorável situação,
com o comércio paralisado, as tropas mal pagas, e os cofres
públicos exaustos. Foi preciso recorrer a novos tributos, o que
descontentou o povo, sendo necessário todo o prestígio de Salvador
Correia para o manter na obediência; mas quando o governador saiu
da cidade para visitar a província de S. Paulo, deixando como seu
substituto Tomé Correia de Alvarenga, a insurreição rebentou,
reclamando os insurgentes a deposição de Salvador Correia, depondo
o seu delegado Alvarenga, e elegendo para os governar Agostinho
Barbalho Bezerra. Quis a câmara do Rio de Janeiro obter o auxílio
dos paulistas, mas estes não só não aceitaram o convite, mas
ofereceram-se a Salvador Correia para o ajudarem a subjugar os
rebeldes. Preferiu este recorrer aos meios pacíficos, e chegou a
declarar a Bezerra que o consideraria como governador, se se
considerasse seu delegado, mas os revolucionários julgando ver
nisto uma prova de fraqueza, não quiseram aceitar estas propostas
pacíficas, e prepararam-se para resistir à força aberta. Pouco
lhes durou, porém, esta resolução, porque, vendo-se isolados,
depuseram as armas, apenas lá lhes apareceu o desembargador
Pessanha, enviado da Baía para inquirir a respeito da revolta, e
Salvador Correia de Sá tomou de novo posse do governo, que exerceu
até ao ano de 1662, e entregando-o então ao seu sucessor, partiu
para Lisboa. Como sucedeu a todos os grandes homens que tantos
serviços prestaram à pátria, a intriga conseguiu feri-lo. Os seus
inimigos, que não eram poucos, desde que a rainha regente D. Luísa
de Gusmão criara de propósito para ele um governo independente no
Rio de Janeiro, trataram de o intrigar, e de o afastar do ânimo
dos ministros, apesar de ser muito favorito do conde de Castelo
Melhor seu filho mais velho, Martim Correia de Sá, que o grande
ministro fez em 1665 visconde de Asseca em recompensa dos muitos
serviços de seu pai. Ainda assim maiores amarguras teve Salvador
Correia de Sá, quando o conde de Castelo Melhor caiu do poder
porque tendo-o D. Afonso VI chamado para se aconselhar com ele,
isso bastou, juntamente com a privança que seu filho tivera, para
o tornar odiado do infante D. Pedro, e para o tornar alvo de
tantas perseguições, que chegou a ser condenado a degredo de 10
anos para essa mesma África, onde ressoava ainda o eco das suas
vitórias. À custa de muito dinheiro conseguiu que o deixassem
ficar num convento, e depois que o deixassem passar à sua casa em
Santos, onde se conservou preso sem menagem. Foi seu filho, que
fora ferido em Badajoz e que ficara gravemente enfermo, quem
instou com ele para que requeresse esta última concessão, porque o
heróico restaurador de Angola, profundamente ferido e desgostoso
com todas estas perseguições, estava resolvido a terminar a vida
num convento. A morte do visconde de Asseca, sucedida pouco
depois, e a orfandade em que ficaram os netos de Salvador Correia
de Sá, fizeram com que o príncipe regente pensasse que era
vergonhoso, realmente, que o homem que tão altos serviços prestara
ao seu país, estivesse agora quase octogenário preso como um
criminoso, enquanto seus netos não tinham quem os amparasse e
guiasse na estrada da vida. Deu ordem para que fosse solto, e logo
em seguida voltou ao lugar que lhe pertencia de membro do Conselho
Ultramarino.
Consta que Salvador Correia de Sá escrevera umas Memorias da sua
vida, que infelizmente se perderam. Fal. contando 91 anos de
idade, conservando até aos últimos dias da sua vida e rijeza do
corpo e do espírito.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VI,
pág. 434-436.
Padre António Vieira
Após a Restauração da Independência em Portugal (1640), em 1641
Padre António Vieira iniciou a carreira diplomática. Em 1644
deixou Portugal como embaixador (seu pai, que antes vivera pobre,
foi nomeado pensionista real) para negociar com os Países Baixos a
devolução da Região Nordeste do Brasil.
O povo de Portugal não gostava das pregações de Vieira em favor
dos judeus. Após esses tempos conturbados da política portuguesa
acabou voltando ao Brasil, onze anos após voltar para a Europa.
Permaneceu na região Nordeste por algum tempo, tendo voltado para
a Europa com a morte de D. João IV, tornando-se confessor da
Regente, D. Luísa.
Com a morte de D. Afonso IV, António Vieira não encontrou apoio, e
a Inquisição vingou-se, acusando-o de heresia com base numa carta
de 1659, endereçada ao bispo do Japão, na qual António Vieira
expunha a sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal
estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do
futuro. Foi expulso de Lisboa, desterrado) e encarcerado no Porto
e depois em Coimbra, enquanto os jesuítas perderam os seus
privilégios. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de
pregar, mas, seis meses depois, a pena foi anulada. Em 1669,
desiludido com D. Pedro III partiu para o Vaticano, onde encontrou
o Papa à beira da morte.
Quando em 1671 uma nova expulsão dos judeus foi promovida, Vieira
novamente os defendeu. Em 1675 foi absolvido totalmente pela
Inquisição, e voltou para Lisboa por ordem de D. Pedro, mas
afastou-se dos negócios públicos.
Em 1681 voltou para o Brasil e dedicou-se à tarefa de continuar a
edição completa em quinze volumes dos seus Sermões, iniciada em
1679, e à conclusão da Clavis Prophetarum. As suas obras começaram
a ser publicadas na Europa, onde foram elogiadas até pela
Inquisição.
Já muito velho e doente, teve que espalhar circulares sobre a sua
saúde para poder manter em dia a sua vasta correspondência. Em
1694 já não conseguia escrever de próprio punho. Em 10 de Junho
começou a agonia quando perdeu a voz e silenciaram-se os seus
discursos. Em 17 de Junho de 1697 faleceu na Bahia, com 89 anos.
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