Quando D. João lll faleceu, já
não era vivo nenhum dos seus nove filhos. Por isso sucedeu-lhe seu
neto, D. Sebastião, que contava, ao tempo, pouco mais de três
anos.
Até à sua maioridade, 1568,
governaram, como regentes, primeiro a avó, D. Catarina de Áustria,
e depois o Cardial D. Henrique, tio-avô de D. Sebastião.
Na Índia, a acção dos
portugueses continuava: pelo vice-rei D. Constantino de Bragança e
ainda na regência de D. Catarina, a praça de Damão, em 1559.
Em 1562, foi defendida em
África, por Álvaro de Carvalho, a fortaleza de Mazagão.
Em 1570, D. Luís de Ataíde, D.
Francisco de Mascaranhas e António Chale, também se notabilizaram,
respectivamente, na defesa das praças de Goa, Chaul e Chalé.
No Brasil, continuava a
progredir a colonização: Mem de Sá fundou a cidade do Rio de
Janeiro, que mais tarde seria capital do Brasil.
Entretanto, em 1568, D.
Sebastião atingiu a idade de 14 nos e assumiu o governo do Reino.
Destemido e aventureiro, D. Sebastião imaginou logo, formar um
grande império às portas do seu reino, levando a cruz de Cristo ao
seio dos grandes senhores de Marrocos. Embalado por este sonho de
glória, surgiu para o rei de Portugal o momento oportuno, que o
destino lhe oferecia, de conquistar as terras abandonadas por D.
João lll e de garantir, na Mauritânia, o predomínio absoluto dos
portugueses: Mulei-Hamede fora desapossado do trono de Marrocos
por seu tio Molei-Moluco. Aquele, com o fim de recuperar a coroa,
mandou pedir auxílio a D. Sebastião, prometendo em recompensa as
fortalezas de Arzila e Corache. Em breve D. Sebastião lho
prestava, invadindo a África, à frente de um grande exército.
No dia 4 de Agosto de 1578
deu-se a célebre batalha de Alcácer-Quibir, em que as tropas
portuguesas, a despeito dos seus lances de heroísmo, ficaram
vencidas. Milhares dos nossos perderam a vida, e uns 50
conseguiram alcançar Arzila e Tânger) caíram prisioneiros. O
próprio rei, empunhando a espada (montante) que dantes servira a
D. Afonso Henriques, arremeteu às cutiladas pelo arraial inimigo e
ali desapareceu para sempre.
Apesar da infortunada empresa de
D. Sebastião ter coberto de luto Portugal, foi somente um herói
vencido que soube … morrer mas devagar, a combater pelo seu Reino
e pelo seu povo.
Só no reinado seguinte foram
resgatados muito cavaleiros e fidalgos, que se encontravam
prisioneiros em Alcácer-Quibir.
Seus restos mortais, que dizem
ser de D. Sebastião, foram em 1582 trazidos para Lisboa e
encontram-se, a ser verdadeiro o que consta, no Mosteiro da
Batalha.
D. Sebastião
Cognome histórico, o "DESEJADO"
Reinou de 1557 a 1578 Décimo sexto rei de Portugal, filho do
príncipe D. João e de sua mulher, a princesa D. Joana, filha de
Carlos V, portanto neto de D. João lll. Nasceu em Lisboa em 1554,
algumas semanas depois da morte de seu pai. Quando seu avô morreu
em 1757, D. Sebastião tinha três anos e meio. Exerceu a regência,
primeiro a rainha viúva, D. Catarina e, depois o cardeal D.
Henrique. D. Sebastião foi declarado maior em 1568. A educação que
o jovem rei recebera, havia feito dele um exaltado, quase um
fanático religioso. Só pensava combater os "Inimigos da Fé", e,
reconquistar as praças de África, perdidas no rei reinado de seu
avô, para depois poder conquistar o império de Marrocos. Em 1573,
apenas com 19 anos, empreendeu de surpresa a sua primeira
expedição africana: Foi a Tânger, mas não obteve êxito e por isso
voltou sem ter tido ensejo de praticar os altos feitos guerreiros
que sempre sonhara.
Em 1578, o imperador de Marrocos, Muley-Ahmed foi destronado por
seu tio Abd-el-Melik, e pediu auxílio da D. Sebastião para
reconquistar o trono. D. Sebastião julgou então que tinha chegado
o momento de realizar os seus sonhos. Desprezando conselhos e
objecções que os seus conselheiros lhe davam e alertavam, embarcou
para África com um exército mal organizado e muito mal dirigido. A
batalha de Alcácer-Quibir (*), em 1578, foi o desfeito desta
insensata aventura e D. Sebastião desapareceu na batalha ... Os
restos de que se julga ser de D. Sebastião, jazem no Mosteiro de
Batalha (distrito de Leiria).
(*) A batalha de Alcácer-Quibir: Em quatro de Agosto de 1578, o
exército português comandado por D. Sebastião, foi completamente
derrotado e destroçado pelos Árabes. D. Sebastião, vendo que a
batalha estava completamente perdida e as tropas a serem
destroçadas, num gesto de grande desespero entranhou-se nas
fileiras inimigas e nunca mais tendo sido visto com vida. Neste
empresa foram mortos ou ficaram prisioneiros muitos milhares de
portugueses.
Sebastião I "O Desejado". 16.º
rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1544, sendo filho, póstumo do
príncipe D. João, o único filho varão sobrevivente de D. João III,
e de D. Joana, filha do imperador Carlos V.
D. João III tivera 10 filhos, legítimos e 1 bastardo, mas todos
morreram em vida de seu pai, só o príncipe D. João, que nascera em
1557, chegara à adolescência, e por isso, apenas ele completou 15
anos seu pai o casou com D. Joana, filha de Carlos V, mas a sorte
fatal que perseguira os outros filhos do monarca, também o não
poupou, e o príncipe D. João faleceu a 2 de Janeiro de 1554,
deixando sua esposa grávida e próximo do termo da gravidez.
Esperavam todos com ansiedade o nascimento do neto de D. João III,
porque a coroa achava-se ameaçada de ficar sem sucessão, e uma
clausula fatal inserida nas escrituras do casamento da infanta D.
Maria de Portugal com o príncipe D. Filipe de Castela, atribuía
aos filhos deste matrimónio a herança da coroa portuguesa no caso
de faltarem herdeiros directos. Era a união ibérica sempre temida
e sempre detestada pelos portugueses, portanto, todos esperavam
com grande inquietação o nascimento do filho póstumo do príncipe
D. João, e foi com a maior alegria que se soube, a 20 de Janeiro
desse ano de 1554, que acabara de nascer um filho, que ia receber
o nome de Sebastião, por ter nascido no dia em que a igreja reza
desse santo. Pelo entusiasmo com que aquela noticia fora recebida,
se deu ao futuro rei o cognome de Desejado. Não foram os menos
contentes os avós, que se viam na perspectiva de ficar sem
descendência. D. João III, porém, pouco tempo sobreviveu, porque
morreu três anos depois, deixando a herança da coroa a essa débil
criancinha, única esperança da nacionalidade portuguesa, e que
estava predestinada para nos ser tão fatal.
D. Sebastião, começou, pois, a reinar desde 11 de Junho de 1557,
com três anos e meio de idade, e foi logo aclamado rei.
Levantaram-se dúvidas a respeito da regência, que o cardeal D.
Henrique reclamava como tio-avô do jovem monarca, e que a avó, a
rainha viúva D. Catarina, assumiu em virtude dum testamento mais
ou menos autêntico de D. João III. A regente, porém, era uma
senhora que não deslustrava a família a que pertencia, era digna
irmã de Carlos V. Inteligente e sagaz chamou para seu auxiliar o
cardeal D. Henrique, no propósito reservado de o aniquilar, o que
facilmente conseguiu. Para o consolar, trabalhava em Roma para que
o elegessem papa, mas no governo do reino anulou-o completamente.
Contudo, D. Henrique intrigava, e a rainha para acabar com esse
estorvo, lembrou-se de dizer que lhe entregava completamente a
regência do reino. Apanhado de improviso, o cardeal infante não se
atreveu a aceitar; a sua recusa foi logo aceite e sancionada pelas
cortes, que para esse fim se reuniram, e D. Catarina ficou então
na posse indisputada e completa da regência. Contudo, D. Henrique
tinha um poderoso auxiliar, que eram os jesuítas, a cuja astúcia
confiou o êxito da sua causa. Contra eles é que D. Catarina nada
pôde conseguir. Os jesuítas tanto intrigaram que afinal a rainha,
em 1567, depois de 10 anos de regência, viu se obrigada a cedê-la
definitivamente a D. Henrique. Esta regência durou, porém, só até
1568, ano em que D. Sebastião tendo completado 14 anos de idade,
foi declarado maior. D. Henrique não era homem capaz de só por si
lutar contra a sua inteligentíssima cunhada. Esta cedera, mas não
tardou a tomar a sua desforra.
Apenas D. Sebastião chegou aos 14 anos, a rainha-avó tanto se
moveu que conseguiu que fosse proclamada a maioridade. A regência
do cardeal durara apenas um ano. Que esperanças podia o novo
soberano inspirar ao povo, e qual seria a sua educação. Ficara
órfão de pai, ainda antes de nascer; sua mãe partira para Espanha,
mostrando-se muito despeitada por lhe não ser confiada a regência,
quando morreu D. João III. A rainha D. Catarina, avó do monarca,
podia ser excelente educadora, e mostrou-o resistindo por algum
tempo à nomeação que lhe queriam arrancar dum jesuíta para mestre
do seu neto, a que afinal cedeu. A Companhia de Jesus era já nesse
tempo um colosso. O preceptor foi o padre Luís Gonçalves da
Câmara. Para aio escolheu-se D. Aleixo de Menezes, homem de são
critério e espírito superior. Os que detestavam a influencia
jesuítica imaginaram que D. Aleixo de Menezes, com a sua
autoridade exerceria maior influência no ânimo do discípulo. Mas
não sucedeu assim, Sem o querer, é certo, D. Aleixo contribuiu
para completar a educação do jesuíta. O padre Câmara fez de D.
Sebastião um monge, e D. Aleixo um militar brioso; essas duas
educações combinadas deram em resultado esse monge militar
coroado, esse templário entusiasta, que arrastou Portugal é,
ultima cruzada, e que nessa cruzada o perdeu. Com o seu
temperamento ao mesmo tempo guerreiro e contemplativo, D.
Sebastião facilmente recebeu as lições do preceptor e do aio. O
padre Câmara desenvolvia no seu espírito o fervor ascético e
religioso para poder fazer do rei, confiado aos seus cuidados, o
fiel escravo da Companhia; D. Aleixo de Menezes, cumprindo o seu
dever, ensinava lhe os brios cavalheirescos que eram próprios de
um rei, e com as suas lições e com os exemplos gloriosos da sua
vida ensinava-o a prezar a gloria das armas e a não temer os
perigos. Ao mesmo tempo ouvia o jovem monarca a cada instante em
torno de si lamentar a resolução de D. João III, que entregara aos
mouros algumas praças que tinham sido conquistadas pelos nossos à
custa de tanto sangue; era bem criança ainda, mas já com o
espírito aberto a todas as impressões, pela sua notável
precocidade, quando a defesa heróica de Mazagão exaltou o reino
todo e precipitou dentro das muralhas da praça africana a flor da
fidalguia portuguesa. Tudo isto concorria para o exaltar e para o
excitar.
Muito inteligente, muito impressionável, aprendendo tudo de
relance, D. Sebastião era por isso mais acessível do que qualquer
outro é, influencia de todas estas causas. Dividia o seu tempo
pelas caçadas, pelos exercícios religiosos e pela leitura de
livros de história, principalmente da história portuguesa. O seu
grande prazer era desafiar o perigo e procurar as agruras e os
descómodos da vida montesina. Ia de Inverno para Sintra, de Verão
para Salvaterra e Almeirim, em dias de temporal é que ele folgava
de embarcar nas galés e de ir fora da barra contemplar, da popa
dos navios, o mar embravecido. Fugia do amor com uma
insensibilidade notável, tanto porque julgava esse sentimento
efeminado incompatível com os seus hábitos guerreiros, porque o
seu espírito religioso lhe fazia ver o ideal da vida humana na
castidade ascética. Tudo concorria pois para perder o rei e o
país; as qualidades de D. Aleixo de Menezes e os defeitos de Luís
Gonçalves da Câmara, os seus hábitos de caçador semi-selvagem que
lhe faziam desprezar a um tempo o amor e o perigo e que o
impediram de deixar um herdeiro da coroa e de salvar-se por
ocasião da derrota de Alcácer Quibir, quando isso lhe era ainda
tão fácil. D. Sebastião tornou-se completamente um escravo dos
jesuítas, que tudo tinham feito por lhe desenvolver o fervor
religioso, que animavam o seu afastamento das mulheres, porque a
influencia duma mulher, esposa ou amante, destruiria para sempre a
influência do confessor. Este, sempre hábil, enquanto precisou de
ter quem o escudasse, favoreceu o cardeal D. Henrique, criatura
sua, contra a rainha D. Catarina, e quando viu que já lhe não era
preciso, tratou de o inutilizar, servindo-se para isso do despeito
de D. Catarina, e foi proclamar a maioridade de D. Sebastião. D.
Henrique, profundamente despeitado, recolheu-se ao convento de
Alcobaça, e D. Catarina, vendo logo que não podia nada em seu
neto, porque, tendo-lho pedido que nomeasse vedor da fazenda Pêro
de Alcobaça, homem de grande importância e merecimento, teve o
desgosto de ver a sua recomendação postergada, sendo escolhido
para esse legar D. Martinho Pereira, homem perfeita mente nulo,
para escrivão da puridade Martim Gonçalves da Câmara, irmão do
confessor, e para secretario Miguel de Moura, também uma
inutilidade, de forma que os Câmaras eram verdadeiramente
omnipotentes no conselho de D. Sebastião.
Havia outra influência poderosa no ânimo de D. Sebastião, que o
jesuíta trataria de destruir se a morte lhe não poupasse esse
trabalho. Era o velho aio D. Aleixo de Menezes, que faleceu logo
em 1569, deixando ao seu pupilo umas recomendações, que ele nunca
cumpriu. Aconselhava-lhe que não desse ouvidos aos aduladores que
pretendessem afasta-lo de seu tio e de sua avó e foram esses
aduladores omnipotentes no seu espírito; que se não entregasse nas
mãos dos fidalgos moços, e foi logo o que ele fez da a breves
anos; que se não lançasse em empresas temerárias e improfícuas
para o reino, e houve a expedição lamentável a Alcácer Quibir; que
não entregasse os cuidados do governo a religiosos, e quem
governava em Portugal eram dois padres; finalmente lhe
aconselhava, que não promulgas se pragmáticas incómodas para os
seus vassalos, o D. Sebastião, com as tendências do seu espírito
monástico, a primeira coisa que fez, foi promulgar uma pragmática
severíssima. Como as cortes insistiam para que el-rei escolhesse
noiva entre as princesas europeias, D. Sebastião resignou-se, e
principiou a negociar-se o seu casamento com a célebre Margarida
de Valois, irmã de Carlos IX. A Espanha opôs-se vivamente a esse
casamento, e tratou de oferecer a arquiduquesa Isabel, mas, depois
por uma mudança de politica, Filipe II casou esta princesa com o
próprio rei de França, Carlos IX. D. Sebastião ressentiu-se dessa
desfeita, e tomou o caso como pretexto para se recusar
absolutamente a entabular novas negociações para o seu casamento.
Estavam, por conseguinte, seguros os jesuítas; ainda assim
receavam que a avó recuperasse sobre ele o seu antigo império, mas
para se livrarem desse receio, foi suficiente insinuarem-lhe que
D. Catarina queria continuar a governar à sombra dele, para que o
irritável monarca se despeitasse de forma, que infligiu à avó tais
desfeitas que D. Catarina se retirou escandalizada para o palácio
de Xabregas, enquanto D. Sebastião passava em Santos ou na
Alcáçova o pouco tempo que residia em Lisboa. Queixavam-se muito
dessas constantes saídas os habitantes da capital, e com mais
razão se queixaram ainda, quando, sobrevindo a terrível peste de
1569, D. Sebastião os abandonou completamente, fugindo da epidemia
com a maior cobardia, ele que tantas provas dera de louca e
temerária audácia. E porque em D. Sebastião o valor era uma
questão de temperamento e não de consciência; não tinha o valor
reflectido, que afronta os perigos para cumprir um dever, tinha o
valor brutal do caçador e do soldado, a quem o perigo embriaga
como um vinho ardente. Durante uma viagem que fez pelas
províncias, fugindo da peste de Lisboa, praticou as maiores
extravagâncias. Mandava abrir os túmulos dos reis seus
antepassados, extasiava-se diante dos que tinham sido guerreiros,
mostrava o mais completo desdém pelos pacíficos, principiando a
inspirar a todos os mais sérios receios esta sua índole
destemperada e bravia que se curvava ao jugo dos jesuítas.
Por esse tempo veio um novo facto actuar no seu espírito. D. João
de Áustria ganhara a gloriosa batalha de Lepanto, e essa vitória
tivera ecos infinitos na cristandade. Sentiu-se um pouco
estimulado, os louros do moço príncipe espanhol, seu tio, lhe
perturbaram o sono. Nesse tempo veio a Portugal um legado do papa,
o cardeal Alexandrino, convidar D. Sebastião para uma cruzada
contra os turcos. O monarca abraçou com entusiasmo essa ideia.
Afirmou à república de Veneza que marcharia imediatamente em seu
auxílio, escreveu ao Xá da Pérsia para que ele atacasse pelo
Oriente o império turco enquanto os cristãos o atacariam pelo
Ocidente. Enfim, chegou ao ponto de mandar dizer a Carlos IX de
França, que aceitaria a mão de sua irmã Margarida de Valois se ele
quisesse entrar na sua cruzada contra os turcos. Não só se
resignava a esse casamento, como recusava o dote de 400.000
cruzados, e se comprometia a dar outros 400.000 mil a Carlos IX
para ele guerrear os huguenotes do seu reino. O rei de França não
pôde aceita esse vantajosíssimo negócio, porque Margarida de
Valois já era noiva de Henrique de Navarra. D. Sebastião resolveu
passar à Índia, mas dissuadiram-no dessa ideia; quis então passar
à. África, de que também o dissuadiram; pensou em aprestar uma
frota para ir socorrer Carlos IX nas suas guerras contra os
huguenotes, mas a matança da noite sangrenta de São Bartolomeu
dispensou esse auxílio. O rei de Portugal resolveu de novo ir ao
Oriente, mas teve de desistir desse projecto, porque as
tempestades no próprio rio Tejo lhe dispersaram a frota. D.
Sebastião continuou a dar prova da mais rematada loucura. 0 pior,
porém, foi a primeira expedição a África, em que logo ao sentiu a
que loucas temeridade se poderia arrojar essa criança coroada. Em
Agosto de 1574 embarcou secretamente e passou a África, sem
prevenir pessoa alguma. Houve grande terror, quando se soube do
seu desaparecimento sem se poder suspeitar para onde ele fora.
Finalmente apareceu uma carta régia, em que participava a sua
expedição, nomeando regente do reino na sua ausência o cardeal D.
Henrique. As pessoas mais autorizadas lhe mandaram suplicas
repetidas, pedindo-lhe que voltasse. D. Sebastião voltou, mas não
foi por esse motivo, foi porque nem em Ceuta nem em Tânger
encontrou ocasião de combater. Os marroquinos, apenas souberam da
sua chegada, retraíram-se supondo que D. Sebastião era acompanhado
de todas as suas forças do reino. D. Sebastião regressou por
conseguinte a Portugal, mas decidido a voltar em estado de tentar
empresas sérias.
O resultado mais importante desta expedição africana foi a
convivência mais íntima que travou com uns fidalgos moços e com D.
Álvaro de Castro, que, sem ser moço, era o chefe do partido
juvenil, convivência de que resultou o golpe de estado que deu
apenas chegou a Lisboa, e pelo qual Martim Gonçalves da Câmara
caiu no régio desagrado. A influência passou então a D. Álvaro de
Castro, mas D. Sebastião que em nada se importava com os negócios
públicos, que tudo deixava entregue aos seus ministros, só numa
coisa era intransigente, no que dizia respeito à expedição
africana. Esse era o seu grande, o seu decidido empenho. Voltando
de Tânger não pensava noutra coisa. Os seus validos agora eram D.
Álvaro de Castro e Pedro de Alcáçova Carneiro. Foi este último
encarregado de ir negociar com Filipe II um tratado de aliança
contra Marrocos, e logo viu que o soberano espanhol não pensava
nem por sombras em fazer uma cruzada africana, mas como hábil
político, não querendo ficar com a responsabilidade do malogro de
uma negociação em que o rei estava empenhado, soube fazer aceitar
a D. Sebastião a ideia de uma conferência com seu tio D. Filipe.
Foi a célebre conferência de Guadalupe no Natal de 1576. Nessa
conferência D. Sebastião insistiu no seu projecto, alegando como
pretexto político que era indispensável tomar Larache aos mouros.
D. Filipe, primeiro, tentou dissuadi-lo, mas depois começou a
entrever as vantagens que da realização desse projecto lhe
poderiam talvez resultar, e tratou então unicamente de se não
envolver a si próprio no desastre. Por essa ocasião apareceu um
inesperado ensejo, que até certo ponto parecia justificar os
planos de D. Sebastião. Disse-lhe o bispo do Algarve, D. Jerónimo
Osório, que não desaprovava a ideia de uma cruzada contra os
mouros, mas que achava inconveniente de todo o ponto a ocasião, e
que devia aproveitar-se o momento em que houvesse discórdias
graves entre os mouros. Ora essas discórdias deram-se, e tão
graves que um príncipe, Muley Moluk, tio do soberano reinante
Muley Hamed, expulsou-o do trono, e este apareceu em Portugal
pedindo socorro ao rei, a quem prometia em compensação as mais
largas concessões de territórios. Para prova da sua boa fé, um seu
partidário entregou logo soe capitães portugueses a praça de
Arzila que D. João III abandonara. D. Sebastião ficou
contentíssimo com este fausto sucesso, e deliberou logo sem a mais
leve hesitação, empenhar todas as forças do reino em socorrer
Muley Hamed. Debalde todos, sem excepção, instaram com ele para
que desistisse de tão louco intento; debalde o conselho de Estado
unanimemente lhe declarou que não aprovava semelhante
procedimento; debalde a rainha D. Catarina lhe suplicou e o
cardeal D. Henrique e o senado da Câmara de Lisboa e os próprios
embaixadores de Filipe II instaram com ele, que desistisse do
intento, debalde o próprio Muley Moluk lhe ofereceu as condições
mais honrosas para que a paz se não rompesse, de ninguém fez caso
na sua extraordinária monomania. Ao conselho de Estado disse que o
reunira, não para deliberar sobre a questão de se saber se era ou
não oportuna a sua passagem à África, essa já, não admitia
discussão, estava perfeitamente resolvida. Do que se tratava era
de se saber o modo como se havia de realizar a expedição
projectada. A Muley Moluk exigiu que lhe entregasse primeiro umas
poucas de praças, ditando condições a um inimigo poderoso, mas
prudente, como as ditaria a um vencido.
Se a empresa era insensata, o modo de a levar a efeito foi mais
insensato ainda. No levantamento do dinheiro preciso para a
expedição cometeram-se as maiores exacções que irritavam o povo
extraordinariamente. Depois fizeram-se grandes levas no
estrangeiro a peso de ouro, e reuniram-se terços espanhóis,
alemães e irlandeses, com todos os inconvenientes das tropas
mercenárias, recrutaram-se no reino uns 9 mil soldados bisonhos,
fracos, que não ofereciam a mínima garantia. 0 corpo de
voluntários da nobreza era brilhante, sem dúvida, pela bravura dos
que o compunham, mas era ao mesmo tempo indisciplinado, e depois
equipava-se com um luxo completamente impróprio para uma expedição
militar. D. Sebastião, não só tolerava esse luxo, apesar das
severas pragmáticas que promulgara em tempo, mas animava-o. Apesar
de ser acima de tudo cortesão, Pedro de Alcáçova não pôde deixar
de escrever uma Memoria, apontando os inconvenientes da expedição,
e o modo desastroso como estava sendo preparada. D. Sebastião
havia nomeado general da armada a D. Luís de Ataíde, homem de bom
conselho e de muita circunspecção, e que sempre se havia oposto a
esta temerária empresa; mas por isso mesmo o rei o mandou por
vice-rei para a Índia, e deu o comando a D. Diogo de Sousa.
Completamente desvairado, tendo-se munido da espada de D. Afonso
Henriques que mandara pedir a Santa Cruz de Coimbra, e de uma
coroa de ouro que devia colocar na cabeça quando se proclamasse
imperador de Marrocos, partiu finalmente a 25 de Junho com uma
armada de 800 velas e um exército de 18.000 homens, em que
entravam soldados de todas as proveniências, que já em Lisboa
haviam tido varias e gravíssimas rixas. Ao chegar a África, as
loucuras continuaram. Foi D. Sebastião quem tudo quis dirigir.
Para tomar Larache, que é um porto de mar, desembarcou em Tânger a
17 de Julho de 1578, e seguiu por terra, passando por Arzila e
Alcácer Quibir. A marcha em Agosto era pesadíssima para os nossos
soldados, que ao chegarem a Alcácer Quibir iam já mortos de
fadigas.
Seguiu-se a batalha desastrosa de 4 de Agosto, que já está
descrita minuciosamente nesta obra, vol. I, pág. 149;
acrescentaremos que D. Sebastião, apenas sentiu o cheiro da
pólvora, esqueceu tudo, os seus deveres de comandante, as ordens
que dera, e arrojou se ao inimigo do espada em punho, praticando
verdadeiros prodígios de valor. Quando a derrota começou, D.
Sebastião nem deu por ela, mas do repente, quando percebeu que as
hostes portuguesas estavam em completa debandada, compreendendo
então a enormidade dos seus erros, soube expiá-los os
heroicamente. Era um novo erro, porque a sua morte ia deixar o
trono vago, sem sucessão. Soube morrer com brio, com uma
intrepidez verdadeiramente extraordinária. Acompanhado apenas por
uma porção de fidalgos, arrojou-se loucamente ao inimigo,
procurando salvar a artilharia que os marroquinos levavam. Não o
conseguiu, e os fidalgos que o rodeavam, esquecendo também a sua
própria salvação, resgatando lambem heroicamente as culpas da sua
temeridade, não pensavam senão em dar a vida para o salvar. 0
prior do Crato, a pé, com a espada embotada dos golpes que
vibrara, todo coberto de sangue, indicava-lhe um claro nas
fileiras muçulmanas por onde podia ainda salvar-se, mas D.
Sebastião não o atendia. Já não tinha a exaltação febril da
coragem, mas a resolução fria de lavar com todo o seu sangue a sua
culpa enorme. Já não podia fugir, mas podia comprar a vida com a
perda da liberdade. Rendei-vos, senhor, dizia-lhe D. Francisco de
Mascarenhas, e ele, meneava trinta e negativamente a cabeça. Só
nos reata morrer, acudiu D. João de Portugal. Morrer, sim,
respondeu o monarca com voz abafada, morrer, sim, mas devagar.
Cristóvão de Távora, querendo salvá-lo à viva força, acenou a um
mouro que viu próximo, para que viesse tomar-lhe a espada, mas D.
Sebastião percebendo, disse bruscamente: Não, não a liberdade real
só se há de perder com a vida. E metendo esporas ao cavalo com
verdadeira fúria, sumiu-se nas fileiras muçulmanas vibrando para
um e outro lado as mais formidáveis cutiladas. Debalde, os
fidalgos tentaram segui-lo, mas D. Sebastião tomara-lhes tão
grande avanço, que foi impossível alcançá-lo. Desapareceu, e da
sua sorte nunca mais se soube. O povo não quis acreditar na sua
morte, e formou se em torno do seu nome, não só uma lenda, mas uma
seita, que ficou conhecida por Sebastianistas. Mas a morte do
infeliz monarca foi oficialmente reconhecida, e a coroa caiu por
infelicidade em seu tio, o cardeal D. Henrique. Em 1582 o cadáver
suposto ou verdadeiro, veio para Portugal, e foi enterrado num
túmulo da igreja de Belém, onde se escreveu um pequeno epitáfio em
latim, que deixa transparecer a dúvida, porque diz: Aqui jaz, si
vera est fama ...
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VI,
págs. 778-782.
A batalha de Alcácer-Quibir
http://www.eternos.org/2006/08/04/a-batalha-dos-tres-reis/
Em 1576, o sultão de Marrocos, Mulei Maamede é
deposto pelo seu tio, Mulei Moluco. Entusiasmado com uma vitória
alcançada em Tânger, Sebastião decide apoiar Maamede, que em troca
lhe ofereceria Arzila.
D. Filipe II, de Espanha, considera a ideia da cruzada uma loucura
e não apoia o sobrinho, tentando demovê-lo da ideia. O sultão
Moluco faz uma proposta de paz e compromete-se mesmo a oferecer a
Sebastião uma parte da costa de Marrocos. Em vão.
A 25 de Junho de 1578, parte de Lisboa uma imensa frota de 500
navios e 23 000 soldados, incluindo mercenários oriundos de toda a
Europa e grande parte da nobreza portuguesa.
Chegando a Arzila, juntam-se ao exército, os homens de Mulei
Maamede e juntos partem para o interior, ao encontro dos seus
destinos.
A 4 de Agosto de 1578, chega o momento da verdade. Mulei Moluco
está gravemente doente, e apesar do seu exército de 100 000 homens
ter uma vantagem numérica imensa, tenta ainda chegar a um acordo,
mais uma vez sem qualquer sucesso.
Portugal, com um exército esgotado pelo cansaço, pela fome e pelo
calor, enfrenta então os Mouros, comandados por Moluco. Depressa
Sebastião vê os seus homens rodeados pelo imenso poderio do
inimigo, e a batalha caminha para o seu inevitável desfecho. 8000
mortos, 15 000 prisioneiros, 100 sobreviventes que conseguiram a
fuga até à costa.
D. Sebastião desapareceu. Moluco acabou por morrer também nesta
batalha, não por ferimentos, mas pelo seu estado débil agravado
pelo esforço de cavalgar. Maamede sobreviveu à batalha, mas
acabaria por morrer afogado num rio enquanto tentava a fuga. Em
Marrocos, a batalha de Alcácer Quibir é conhecida como a batalha
dos três reis.
As consequências
Com o desaparecimento de Sebastião, é o seu tio-avô, o Cardeal D.
Henrique que sobe ao trono. O seu curto reinado de dois anos, é
dedicado a tentar minimizar o desaire da derrota sofrida no Norte
África. A maioria dos nobres portugueses morreram ou foram feitos
prisioneiros, e o país precisa endividar-se para pagar os resgates
exigidos pelos Mouros.
Finalmente, com a morte do Cardeal, Portugal fica sem um sucessor
directo ao trono. Os pretendentes sucedem-se, mas acaba por ser
Filipe II de Espanha, tio de Sebastião a conquistar o trono. Pela
primeira vez desde a sua fundação, e por um período de 60 anos,
Portugal deixa de existir como nação independente.
Lenda de D. Sebastião
Décimo-sexto rei de Portugal, filho de Dom João de Portugal e de
Dona Joana rainha de Áustria, filha de Carlos V. Em 1578, com 24
anos, partiu para Marrocos com um grande exército, dos quais cerca
de um terço eram mercenários estrangeiros. Embora os militares
mais experimentados na guerra o aconselhassem a não se afastar da
costa (de onde lhe poderia vir auxílio dos navios portugueses), o
rei preferiu avançar para o interior com as suas tropas. Encontrou
o exército muçulmano em Alcácer Quibir e aí se travou a célebre e
infeliz batalha em que foram mortos ou feitos prisioneiros
praticamente todos os portugueses que nela participaram. O rei
também morreu na batalha solteiro e sem deixar descendentes, mas
nenhum dos portugueses que regressaram disse ter visto seu corpo.
Dois anos depois, Portugal perdeu a sua independência política,
quando Filipe II, rei de Espanha e neto do rei Dom Manuel I, subiu
ao trono de Portugal. Durante os anos que se seguiram, o povo
acreditava que Dom Sebastião não tinha morrido na batalha e iria
regressar a Portugal, numa noite de nevoeiro. Então, reclamaria
para si o trono e o reino ganharia de novo a sua independência.
Esta crença popular ficou conhecida na história com o nome de
"Sebastianismo". Como tema popular, o sebastianismo assumiu enorme
importância, dando expressão a um desejo persistente de libertação
da miséria e opressão quotidianas. Para o povo, D. Sebastião não
morreu, apenas desapareceu. Este vazio provocado pelo seu
desaparecimento determina a esperança no seu regresso. D.
Sebastião torna-se, assim, o desejo encoberto da alma do povo
português.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite
Ribeiro – Marinha Grande - Portugal
Pag. das dinastias: